14.2.02

O silêncio azul-acinzentado... Quadros de Picasso.

A fase azul do desespero.
Blues. Mystery Lady, Etta James.
Sinto-símbolos-silêncio-imagens-sopro-soco-calo.



The Old Guitar Player, 1903




Blue Nude, 1902




Blue Room




Couple
"(...)Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser."
Antonin Artaud

O Assinalado (Cruz e Souza)

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas etrenas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

13.2.02

Vida privada

O que estou fazendo? O que está acontecendo? Estou com uma tosse horrível. Estou fumando muito, sei que é um pigarro mal resolvido. A parte boa de ficar gripada é a hora dos remédios - mel com limão, chá de alho, biotônico, gengibre de canela, hum... Nada melhor do que um cigarrinho depois do xarope. Ultimamente ando fumando uma carteira de Marlboro lights por dia - isso não é propaganda, é repetição, é rotina. Fumo o mesmo cigarro a algum tempo que faço questão de não lembrar a quanto tempo não deixo de fumar. Ninguém vai entender o que quero dizer, na verdade, só... Ouço:

"... e toda vez que eu arranho as minhas unhas nas costas de outra pessoa espero que você sinta..."

A noite foi estranha. Estou estranha. Acordo levemente entusiasmada com a luz do dia, sinto alguma possibilidade se clareando frente à minha - amassada - mão. O dia, o sol, a luz, a rotina, a possibilidade, a janela... No auge da coragem o medo de altura. São os detalhes que fazem a diferença. Sempre, claro que não - odeio essas palavras que parecem julgamentos finais. Por um triz, sim. Nem tudo é sempre ou pra sempre. Mas e um triz? Uma gotinha de adoçante faz diferença e uma vírgula pode mudar o sentido da sentença. Um sorriso com dente ou sem consegue significar tanta coisa... Imagine um desdentado com cara de tarado rindo pra você dentro de um ônibus vazio. Agora, imagine ele chorando com a boca fechada. A gente nunca sabe o que realmente se passa dentro das pessoas.

Não espero nada mais que do que espero sem programação. As coisas fluem e os detalhes não me pertencem - são teus. Me interprete como quiser - é pra você. Não chame o compromisso, deixe que ele venha ou vá embora sem ser ofendido. Não feche a porta.

Deixe o leite do peixe dentro dele
Deite fundo com sede
Foda com essa fossa:
Água em demasia.

Não quero ser repetitiva dizendo que tudo é lindo. Não, não é mesmo. Acho terrivelmente patético quando as pessoas dizem supérflumente, te reconhecem "aparentemente" de algum lugar conhecido. As pessoas se parecem e se repetem...

- Hum, acho que te conheço!
- É mesmo?
- Não consigo assimilar...
- As coisas se encaixam... Prefiro não forçar.

Caras comuns. Caras. Mãos. Cabelos. E o ego ali parado, esperando um grande aplauso entusiasmado. O ego esperando a rima rimar. O ego esperando a poesia. Não! Esse texto é pra você e não quero te mostrar. Mas vai acontecer porque não quero esconder meus detalhes. Perfeitos defeitos do excesso, lembremos:

- Te encontrei no banheiro!
- As coisas se encaixam nos cantos.

(Estava cheia do meio cheio)

- primeira cena privada -

"Ali, em cima daquela mesa suja repousavam farelos de pão e uma jovem família de baratas. Ela colocou seu ego deitado dentro de um pires de porcelana chinesa, fez uma promessa descompromissada e esperou o próximo jantar. Era um ego tão convidativo quanto um chic crepe suíço de morangos banhados em chocolate derretido quando se está nauseando. A partir daquele exato instante, quem tomasse café-com-canela e não se preocupasse com o pires chinês (que parecia paraguaio), sentiria o ego murchar como um pão dormido e francês de padaria portuguesa. O tempo parou e só restaram farelos de palavras cansadas de prometer o improvável. Ninguém mais sentou pra comer na mesa. Só os chatos se importam com pires chineses..."

Vida só. Chego em casa, tranco a porta, abro a geladeira - não tem nada - fecho a porta, entro no quarto e não raro, não saio dali. Entro em lugares desconhecidos e durmo livre de mim. Acesso outros ambientes - acordo porta. Me faço fechada - máscara. Eu, privada solitária. Deito na mesa aparentemente vaga. Entre sem bater, qualquer coisa arrombe a porta...

Que entre o prato de entrada.




:::posted by Tamara Costa

9.2.02

Dica do mestre dos magos para o Carnaval

Falar que eu não gosto de páscoa, aniversário, natal, carnaval e coisas do tipo superfulamente comemoráveis; normal. Aproveitar o feriadão e ir com seus mínimos trocados acampar num lugar calmo, bonito e barato; normal - sempre vou (no passado) pra Piri. Bom, bem que monetáriamente falando, daria pra passar uns dias em Piri, mas nem... NEM PENSAR! Piri, com a graça da grobo, agora é Jagatá. Na última vez que estive lá (acho que em setembro), acampamos no mesmo camping de sempre - o da argentina - e estava totalmente diferente, lotado, sujo e caro. Antigamente a gente pagava 4 ou 5 reais por dia, a barraca ficava armada tranquilamente no espaçoso matinho verdinho, passávamos o dia interio tranquilos nas cachoeiras e tudo estava lindo. Mas isso foi só até a Sandy resolver dá uma de "pode crê". Depois da novela, Piri virou um inferno holístico. Tem projeto de doido de todos os gêneros e estilos. Na minha concepção, lá sempre foi um refúgio para as pessoas que preferem respirar ar (ao invés de monóxido de carbono) no fim de semana, preferem um lugar onde, principalmente, os pés são utilizados. Trilhas, cachoeiras, verde, mato... O asfalto da cidade é daqueles antigos, cheio de remendos quadriculados - coisa de cidade pequena. Mas Piri está uma merda pseudohippie. Agora você vê aos bandos menininhas "mamãe eu quero ser Sandy", com suas roupinhas modelo "Hare Krisna vai à Jagatá", saltos finos e altos que vão enganxando nos buracos do asfalto. Hippie de salto agulha e brinco dourado é o que dá em Jagatá. Fora os ladrõezinhos de acessórios que se sentem livres para atuar em lugares lotados de patricinhas e mauricinhos que viajaram pela primeira vez sem a família.Em Setembro arrombaram nossa barraca e levaram a mochila da Ana e a do Léo Patricinha (a gente apelidou porque ele era muito fresco). Engraçado que no dia seguinte o vizinho veio avisar que tinham uns os sutiãs jogados no matagal (abaixo do camping). Resultado: levaram só as mochilas. O fato é que não vou à Piri nem que a vaca fale tamara! Preciso procurar o rio que corre ao contrário.

Mas poxa vida, ficar em casa assistindo Nelson Rubens "Okey Okey" até de madrugada só me dá náuseas! Não dá mesmo, fico querendo morrer porque não viajei. E por isso, hoje tô indo pra qualquer lugar que apareça. Que seja pra ir nos mesmos bares ordinários que tem as mesmas pessoas que eu tô cansada de ver, vai ser lindo! Vou achar maravilhoso e ótimo. Ah, eu saio de casa hoje... Pelo amor de Zeus - Nelson Rubens e as bundas e as caras e o silicone e a camisinha de time de futebol e Luciana Gimenez e Astrid (que agora é baba ovo de pagodeiros da Bahia) e alegorias e .. - nem, nem, nem. Hoje acordei muito estranha. Estou até meio ecológica ( deve ser por causa do excesso de porcaria ontem), meu cérebro pede uma limpeza. É tortura porque fico pensando no tanto que quero sair logo daqui, penso no tanto que gosto de viajar. Esse ano não viajei por causa de Floripa, que é uma possibilidade de viagem longa. Mas se não me aceitarem na facults, acho que vou surtar de vez. Estou calma, hoje tenho certeza que vou sair nem que seja pra ver se tô ou se tem alguém na esquina. Como diria o mestre dos magos: você vai encontrar o rio que corre ao contrário...

Ah, a tal DICA DO MESTRE DOS MAGOS: procure o rio que corre ao contrário. Ele te levará pro lugar que desejar ir...


A Brastemp e Consul lançaram no Brasil geladeiras e freezers com o selo "Sem CFC". Apesar de parecerem ambientalmente melhores, estes eletrodomésticos contêm duas substâncias nocivas ao meio ambiente. No isolamento térmico das paredes, usam o HCFC (Hidro-cloro-fluor-carbono), que destrói a camada de ozônio. No sistema de refrigeração, usam o HFC (hidro-fluor-carbono), que causa dois problemas: primeiro, é fabricado a partir do CFC; segundo, é um poderoso gás estufa, 3.200 vezes mais potente que o gás carbônico no aquecimento global do planeta... Greenpeace Brasil

E daqui alguns verões a gente tosta (e sente na pele) os grandes mínimos d-efeitos invisíveis da grobalização...

:::posted by Tamara Costa

8.2.02


Duas ou mais imagens abertas

O motivo desapareceu por três ou quatro dias. Não me lembro a quantos dias estou afinada em tua melodia. Pare com esta música! Pare de me dizer o que quero ouvir! Pare antes que eu tenha mais um colapso disrítmico. Então, os dias passam, e você consente que não sabe escrever (ou viver) de outro jeito... Bonito isso:

" Num mundo conduzido por forças cegas e surdas, incapazes de ouvir os gritos de alerta... as súplicas" Albert Camus.

Leio o horóscopo e - O feriado esta chegando, que tal dar uma saída? - o que poderia ser uma voz convidativa, me irrita.

Inquieta, cataléptica e histérica.
Um pulso.
Música e uma mistura de beleza e palidez que está falando mais do que a indiferença poderia ter dito.
Excesso.
Continuo sem lógica enquanto me concentro em qualquer multidão de coisas indizíveis porque sei quando estou perdida; em montes tudo parece igual sem ser.


Mas de acordo com o horóscopo, tudo acaba sempre bem, claro, antes passaremos por processos de obstrução das veias da demonstração da descrença última... Vamos todos gritar no silêncio da ausência até obstruir a última força sadia! E depois do martírio, depois de toda a merda, algo efêmero acontecerá e você acaba por esquecer o que passou, por bem ou mal, acaba esquecendo aquele maldito horóscopo que disse que tudo acabaria - beleza. Normal, a gente busca beleza no que faz mas é justamente no caminho que se escapa a feiura do que não tem fim. Solidão. Não sou daqui...

No meu mundo (que é apenas um na terra) as frustrações não vão para o além, ficam no mesmo plano que ocupo, plano duplo portador de sentidos vazios,
bizarramente habitados.
Saco de ar.


Estou cansada de sutis navalhas afiadas que - sofismas - palavras - nada - cabeça - centro - shopping - cinema - óculos - surpresa - presente - feriado - cabelo - olhos - preto - bem - não atingem meu estado calado.

Noite e silêncio.
Dia e barulho.
Música e ouvido.
Dois em um.
Sentido obsessivamente duplo.


Odeio números que não passam de um monte de significâncias sem sentido qualitativo. O que estou dizendo? Pedi, supliquei algo irracional e agora números se calam frente às inúmeras incertezas metafísicas. Música de um mundo de palavras entonadas "I'm going to prove the impossible really exists..."- Björk.

Expurguei o que não tenho a perder. Tenho essa chance de construir a imagem vaga porém precisa do que sinto - escrevo. Isso é uma droga necessariamente compulsiva. É engraçado... Depois de um tempo percebo acontecer o que aconteceu sem que eu percebesse. E enquanto as palavras iam sendo lançadas à sorte, me senti um horóscopo cheio de possibilidades. Me lancei ao acaso repetidas vezes.

Finda noite repetida
Me pergunto:
Até quando?


Então é isso: Vamos sentar, acender um Marlboro, devagar tragar o intragável e aguardar que o inesperado aconteça.

Tamara Costa



:::posted by Tamara Costa

The Many Eyes of St. George - Relics from St. George and the Dragon (detalhe) 1987. Caixa com olhos de vidro e colagens
David Wayne Boxer




Eu deformo
O acordo:
Entre eu e as coisas
Existe um grande desacordo



4.2.02


Metamorphosis of Narcissus, Salvador Dali


"A idéia de que um acontecimento pode ser sincronístico dá uma perspectiva diferente do fato, aprofunda a compreensão do mesmo ou intriga o suficiente para se olhar além do que aconteceu". Jung
E a outra está


No Play - repeat - Hand in My Pocket (Alanis Morissette)

Toda palavra (aqui, em qualquer lugar) traz a marca de outra ou de qualquer realidade que está distante do que realmente parece parecer à primeira vista. Música é pra ser ouvida (não tente me interpretar) porque também ouve-se com outras partes do corpo, sem pensar. Isso é ponto de sentido - ouvir o que quer, sentir o que bem entender, ver até onde alcançar, amar quem aparece ou quem deseja que um dia apareça... Música é pra ser sentida - escolha a sua - e escute sozinha. Tudo está longe de ser igual a qualquer coisa já tida, ainda que minha música repetida ninguém conheça, ninguém vai massificar.

Um período profundo vivido através-pelas-pelos pêlos-dedos das mãos.

Ouço o som das palavras atravessando o tempo - água - adentrando pequenas vagas entre a fumaça e o pensamento. Música que nunca ouvi, mas já ouvi falar, sabe como é... as pessoas interpretam tudo, falam demais e acabam acertando alguns pontos. Mas o que faço não é diferente. A outra mão - segure minha música - está no primeiro buraco encontrado por estes dedos cansados de desencontrar tua melodia voadora. É música e não posso tocar. Isso me complementa, me faz entender porque "Me sinto bêbada, mas estou sóbria ".

Epidermicamente falando; quero pousar minhas mãos em outros lugares que ainda não tenha pousado. Lugares diferentes. Os lugares estão lotados demais. Estou ficando surda. Escuto o que os outros falam sem mover os lábios. Ouço música. Com licença, vou à música. Merda! Tocaram um dedo em minha bunda. Ninguém viu - eu não estava sozinha. Ninguém pode ouvir minha música acompanhada - não foi tocada em público. Mas não é impossível pois você, melodia pura, está no ar do cigarro que respiro. Não consigo te tocar e não significa nada ser popular - tocar até encher o saco - quando você se apaixona por metamúsicas que ninguém ainda tocou ou viu tocar. Conheço a música do meu desejo que é nítida sob a tela de fundo. E a outra está na boca.

Sinto pelo corpo mas nem sempre por causa dele. Não quero me estafar de falar de música, de idéias, de palavras, de outras, de realidades... Acabo sendo sempre repetitiva e cada vez mais igual e diferente "Sou livre mas concentrada". Repeat - música. Repetindo (você sente, chora, ri, ama e não enjoa). Também não posso medir a conexão entre nossos pensamentos, mas por acaso existe uma explicação exata pra isso? A outra está distante dessa inútil realidade viva de viver dias - domingos - com sintonia. Hoje o dia está lúcido lá fora e eu estou aqui dentro sozinha - apartamento - tentando forjar algumas palavras para meu silêncio. "Estou aqui, mas estou longe" total-mente-expandida, disforme, tentada, apaixonada por minhas dúvidas e falando muito não - mão.

"Se não podes ver, sinta" ou algo parecido me martela a cabeça e os sentidos - são palavras populares do tipo persistentes: querem se fazer sentir a todo instante. Está no papel. Já ouvi ou li em algum lugar mas não consigo achar a primeira fonte. A outra está no cigarro.

Vi Amnésia ontem ou anteontem? Conexão que estou anotando minhas incertezas há algum tempo, persistindo e continuo não entendendo. Estou ouvindo música enquanto tento. Talvez um dia eu consiga relacionar tudo e quem sabe, acabe entendendo os detalhes sem precisar de tantos rodeios. Quem sabe eu pare de procurar fontes externas que se relacionem ao meu plano de divagações. Esqueço coisas que não deveria.

Alguns aforismos perdidos na desatenção da minha "cabeça" costumam se efetivar tempos depois. Aforismos que não dão efeito imediato, é isso. Sou lerda e incapaz de explicar ou entender tudo com uma sentença. A simplicidade é o segredo? Por vezes chego a me convencer que sim, mas tudo é relativo. Merda. Melhor ouvir música.

Um mundo está pra chegar enquanto tudo depende, e talvez, e ponto de vista, e... será que somos capazes de aceitar duas verdades? "E o que quero dizer é que nem todo mundo compreende tudo". Palavra de outra música que está num estado aceitável e por mais que seja aceito, continua inaceitável.

A outra mão está abrindo tuas palavras "Estou triste mas estou rindo, sou corajosa mas tenho medo". Uma parte que vem, outras músicas que chegam... Estou indo, sentindo - silêncio.

"E tudo que quero dizer é que tudo vai dar certo mesmo pois tenho uma mão no meu bolso e a outra está jogando fora um cigarro..."

Tamara Costa




:::posted by Tamara Costa

3.2.02

"O efeito alucinógeno do petróleo na sociedade globalizada"


Öyvind Fahlström


2.2.02

...igual e diferente sem me preocupar com repetições monólogas de eu...

Meu ponto de referência é interno, não externo...

Trecho do texto Dissipada

(...)Talvez esse fosse o estado natural. Saturação da realidade.

Morri e me mataram com uma injeção letal de chumbo. No alto (da percepção) Shiva pulsava com milhares de mãos, dançando à espera de mais uma destruição - a minha. Senti todos os orifícios - boca, ânus, vagina, ouvidos e nariz - sendo invadidos pelas mãos do deus da criação, que matava para poder descansar. É tempo de destrui-se. "O círculo se repete por toda a eternidade, sem um começo ou um fim." Depois de um longo processo de desmaterialização vi meu rosto estampado numa coxa de galinha ao molho pardo. Fui engoli...




Julio Bittner Rojas "Eu adoro frango ao molho pardo"


1.2.02



Sem lutar contra as perseguições (supostas). Estou indo atrás de Catherine Deneuve, que vem me aparecendo em todo lugar nesses últimos dias. Coincidência? Não, não acredito nisso... Mas de fato, quando prestamos atenção em algo ou alguém estreitamos o contato energético - magnético com o mundo. Mas como tudo depende, isso pode ser paranóia mesmo ou uma indicação ou um aviso ou o resultado precário da minha nova obsessão - França.
Em seu primeiro filme,Os Guarda-Chuvas do Amor, uma garota nova apaixona-se por um mecânico. Eu não me apaixonei e ele não era mecânico, mas bem que preferi que ele usasse as mãos e calasse a boca. Tudo a ver... Place Vendôme outro filme, é o nome do meu prédio.
Coincidências? Não! As coisas pedem pra ser olhadas, reparadas, pensadas. Como se a resposta estivesse abaixo do nariz.
A garota do guarda-chuva descobre que está grávida.
Espero que nem tudo seja perfeito... que medo!





Shiva space technology



Drawing Hands, Escher


M. C. Escher - A Arte do Absurdo


Silêncios superficiais - apenas isso


Traiçoeiras, efêmeras, peçonhentas e deliciosas aparências distorcidas. Tosse, pigarro, catarro, silêncio. Pena que você abriu a boca...

Quando me fixo bitolada-a-mente em algo, poucas coisas fixas conseguem satisfazem meus sentidos - minhas fixações não são vistas a olho nu. Sou incapaz de identificá-las num objeto visível - nu.
Meia calça inteiramente rasgada.
Tudo que antes parecia claro e óbvio vai aos poucos afundando, se juntando aos montes. Fixações aparentes - cabelos, tatuagens, pingentes e dedos. Multidões de caras e bocas e pernas e aparências e mesmices e pêlos... isso, a mesma coisa que antes movia tanto sentido, agora - n a d a d i s s o.
Fixação.
Obsessão dedicada.
Meia calça.
Fidelidade.
Nada.

Não era pra ser dito assim. Não queria escrever pensando em pontos e/ou vírgulas. Quando você muda de assunto numa mesma oração; não, o assunto é o mesmo - sinta. Nada é objetivo. Nada disso eu prometi. Não sou nem pretendo ser clara. Não quero me sentir estúpida. Apague a luz.
Meia luz.
Meia calça.
Três por quatro.

- O que está pensando?
- Estou tonta... deve ser a gripe.
- Tem certeza?
- Não tenho... Nada! Não é nada... nada disso.

O silêncio realmente incomoda quando contenho as palavras por saber que não adianta dizer nada quando não há sentimento envolvido; quando não sentimos o assunto é outro. Palavras soltas não fazem sentido em alguns casos tolos. O clima superficial de aparência não passa disso. Faz sentido?

Acordei todas as noites. Hora marcada. Susto ou surto? Insight ou idiotice? Virtual ou real? Sonho ou ... Corri por muitos dias. Pilha de pernas. Furei a fila, invadi o cinema, invadi tua casa - sem porta. Você estava deitada na mesa de centro. Sentei-me no chão. Te vi. Cruzei as pernas e me fixei em teus olhos fechados. Você foi ficando invisível até desaparecer. Por quê logo agora que cheguei? Senti medo por não saber como te fazer voltar. Eu não sabia meditar com medo. Será que pessoas que procuro sempre chegarão antes ou depois da correria?

Desencontro marcado.
Silêncio consentido.
Dores.
Outras realidades.
Verdades que não explico.

Corria de alguma coisa e caí dentro dum buraco, morta ainda viva. A terra e o mato caindo sobre meu corpo imóvel. Pensei em tentar me mover mas não passou disso. Na verdade não saí do buraco porque preferi usar a força do pensamento. Ainda havia muita terra pra cair sobre mim. Esperei a poeira baixar pra agir mas a terra não parava de cair. O pensamento apenas pensava. Então tive medo da incerteza, da terra que não parava de cair sobre mim. Tive medo do silêncio da solidão. Não tenho certeza de nada. Seu corpo era apenas isso.

Três horas da manhã - ópera das cigarras - cigarro.

Não posso ficar de quatro por ou pra você. Não! Cargas pesadas de imagens estupradas por um cio incendido, incontido, impudico, fodido...

- Deixa pra lá, não adianta explicar...

Gozar é fácil quando os papéis e as aparências se multiplicam em sintonia, dando vida aos sentidos desabitados. O hábito pode se tornar um gozo programado ou uma brochada viciada. Fantasiar é não se preocupar, portanto eu poderia morrer de imaginar, rir ou trepar - mas neste caso não dá. Me preocupo com outras banalidades, nada aparentes ou carnais, e não quero me aprofundar. Por isso não vou te encher com histórias complicadas da minha cabeça, por isso quero parecer vazia - mas não estou. E antes que eu me perca, o silêncio também é uma fuga programada. A superficialidade não dialoga.

Me rendo ao silêncio de tua linda boca calada. Não diga nada senão estraga.

- Pode me dizer o que está pensando enquanto me olha?
- Nada...


Tamara Costa


Fone de ouvidos/ Humming


SUSSURROS
"É tudo como parece?
Tão mal resolvido, tão irremediado
Se eu permanecer, como vou saber
E faz tanto tempo, que eu não posso ter certeza
E foi tão errado
Agora, tão errado..."



:::posted by Tamara Costa
(John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism)



Algumas que estou espiando...

Chakrasamvara
Avalokiteshvara


:::posted by Tamara Costa