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24.2.10

Madame Felix Culpa

Aqui vos apresento: Madame Felix Culpa, ordinária asceta.

Um oferecimento de incorporações Juliet Jones e Srta T. LTDA.

1.10.08

cut-up

Talvez eu tenha virado um pedreiro – isso de socar o tijolo, a la Cortázar. Eu não te contei pra te preservar porque senão você enlouqueceria. Estou louca, não idiota. O senhor me dê licença. Há muito mais entre Marx, Freud e tua escravidade do que pudéssemos supor. Por favor, por favor. Preciso ficar sozinha. E é melhor que sua aventura não acabe em comédia. É melhor que você me tire da cabeça.
Vá ver Hebe e não me amole.

(chororô)

Onde é que você passou a noite? O que é que tem? Que tem é que eu sou sua mulher e você tem que me respeitar. Estúpido! Canalha! Pateta! Essa carne de segunda aqui te atura a anos. Cresça e desapareça da minha frente. Mas o que é isso? Ah, nunca mais cantei essa música e você com o mesmo perfume, oh god. Fodeu. É um sinal. Não posso ignorá-los.

A solidão do cisne. O último uivo do último lobo-guará resgatado.

9.11.04

lá:
Os planos ó, me mostrava. Tudo contadinho, certo que não vai faltar nem sobrar... daí você tira que comigo as coisas funcionam sob o limite. Milímetros. Cálculos. E tudo que for possível rumando o absoluto. Crê em deus, medida. Outros parâmetros pelos quais fica difícil parametrar já que o espaço está tomado. Os territórios todos ocupados.

cá:

.o estômago. estava apertado. como se algo ali. ali algo dentro algo se arregaçasse. aqui. fora os espaços se alargando. abrindo. sobro ou grito?
.engasgo-espaço.
.proximidades de um cuspe.

Cuspe desses concisos, lá.
Daqueles que batem no chão Bate e pof.
pedra-fura.
na testa-dura.

!descarrega coisa-rabuja!
.chega de culpa.

Nina

16.5.04

concentrados e distraídos

Every time I rise I see you falling
can you find me space inside your bleeding heart...

Placebo, Passive Agressive

Apertado. havia uma gravata sufocada em seu pescoço. com calma desviei meu olhar já sufocado entre os nós que cada vez mais apertavam nossas gargantas. um moinho, como uma epiglote momentânea nasceu e a partir daquele instante já não restavam mais palavras, já não saía mais nada. Tudo estava preso e entalado e cheio de sangue. Cheio de mágoas. Navalhas. Capturas e estátuas. A ação: como alguém que tapeia uma cara que não é sua. ou como um desrespeito bem vestido que nasce não se sabe, entre a elegância e o desastre. talvez ódios outros entalados que você não quis dizer, aí mesmo se enforcaram sobre nossos corpos. sobre uma cama que não cheirava a nada. e você insistia em dizer que fedia. que algo estava com mal cheiro dentro daquele lugar. e fostes ao banho. meia hora de chuveiro e mais duas ou três camadas de perfume e creme. agora tudo estava cheirando. cheirava uma camada. Superficial. nada estava em ordem. Nunca. nem o cabelo penteado nem a calça lavada nem o sovaco desodorizado. tudo debaixo do tapete. Não havia tapete. tudo estava em perfeita ordem. Não havia ordem. a perfeição se fantasiou de acaso, para simular um encontro mágico. Não havia mágica. eu não te conhecia, tudo mentira.

10.12.03

História esquecida e/ou Um ponto de vista

Ímpia! Foi a igreja benzer-se! E foi rápido antes que a experiência do - Ah! Que merda, porque fui fazer aquilo - antes que mais uma palavra arrependida te sugasse os pensamentos, e não mais houvesse tempo de redimir-se. "Se, porém, Deus salva o pecador, que perigo há em pecar? Na verdade, o pecado é uma tentação positiva..." Pureza como a do coito entre os mosquitos. Sua mãe lhe deixou de herança, o pedir tanto perdão pela inércia das pernas trépidas, e só agora isso anda dando dor de cabeça. No frio fica difícil não querer esquentar-se. Queimou-se por dentro enquanto aquele ser se prostrava sem pedir licença em seu ventre. Certa noite, antes que pensasse em rezar seus pais- nosso com remorso do feito, foi que foi, esse tal de fez que não fez só deu o que pensar no sítio da Mãe Ana, o cheiro de chumaço do sovaco do carpinteiro descamisado. Já é ruim demais se sentir mulher solteira, cansada e ainda frouxa de paixão. Trouxa de roupa suja, largou logo a labuta. Saiu correndo para porteira com a vassoura nas mãos oleosas, ajeitou o grampo do cabelo e de qualquer jeito saiu afoita da casa. A anágua subido, ela gritando - tô indo, tô indo, calma meu filho - abriu a porta e lá estava ele; todo rasgado, um perfeito esculacho, com uns panos debaixo do braço dizendo vamu comigo embora agora! Ave! Ave! Não é assim que se aborda uma mulher cheia de... A profunda respiração era sua única certeza. Uma suspeita de paraíso recuperável. Se lavou de desejo antes que a família perdesse o orgulho. Santa Maria reparadora, ela própria teve a clemência de não tampar os mal feitos. E desde quando respeito compra felicidade moça? - disse o carpinteiro - Não é hora de se confessar - limpou poeticamente o escarro na beira já dura da camisa. Arremessou-lhe um beijo que trouxe além de um desejo descontido, o cruzamento de algumas carícias nervosas. Estava habituada a disfarçar, entrou de lança em casa, catou algumas mudas de roupa e saiu gritando foda-se, palavra mais pura encontrada pro seu estado de ânimo. Alforriada enfim, se livrou da futilidade que mascarava seus dias, saiu com o tal moço num burrinho manco e foi viver sua vida. Foi um escândalo para sua família. Desoladas, as velhas, as irmãs da família e essas coisas, encontraram uma saída para a vergonha que a menina lhe causara. Seus pais espalharam pra vila que a filha, ainda virgem, estava grávida e que foi a escolhida, levada e fecundada pelo amor de Deus. Somente as ilusões eram capazes de "fazer crer" os fiéis, as ilusões não as verdades. Distante do sítio que nasceu, numa cidadela que viveu, teve seu filho que por coincidência ou fatalidade do destino acreditava, desde pequeno, ser profeta - invocando a verdade eterna - palavras de carne e sangue. Naquela época muitos o seguiam e até hoje muitos acreditam em suas palavras. Alguns até o acharam louco, não era na cabeça que ele tinha o centro. Não sabemos quais são realmente os fundamentos das verdades aceitas, mas podemos observar individualmente seu desenrolar. E isso é apenas uma versão de uma história esquecida, uma lenda ou um ponto de vista.
"...E toda criação surge das trevas para a luz."


Tamara Costa

2.12.02

Um buraco - pra sempre um furo

Não quero entrar neste jogo e ao mesmo tempo contraio minhas pernas na janela e amasso este panfleto de outra festa. De outro dia. Amasso com as mãos e você olha para elas e pensa em segurar esta bolinha que fiz com uma das mãos que toquei. Uma bola pequena, sem problemas, sem colapsos. Faço outra igual. Uma outra maior. Veja minhas mãos. Estou crescendo. Não, não é isso que você procura. Mas o que faz aqui? Não, não faço filosofia, mas faria. E tantas outras coisas que você nem sabe, nem precisa saber desse jeito, neste agora. Que me deu. Dor. Me dá e só consigo estar em mim e codificar meus destroços. Pra quem? Não importa, escreva tudo porque é preciso materializar essa coisa antes que ela te sucumba. Antes que vire merda. Faça uma bolinha, faça alguma coisa logo e Não morra agora. Faça ficção. Isto é uma boca, com dois brincos de cada lado, três adentro e estamos no ato com as línguas dando rapidinhas dentro de um buraco escuro. Você foge e eu grito bem alto que tem uma luz lá na frente que ainda não vi. Não, não procure o ponto. Ache, e além do mais você está achando e fugindo e eu sou volúvel agora porque tenho medo mas nunca digo e preciso me apegar as coisas, assim, sem compromisso e de um jeito que ainda não explico estas.
Digitais.
Não alcanço o alce da tua chance e me perco nos códigos. Me perco, eu digo perco o começo, se é que tivemos, até nunca mais, nunca mais pra sempre até. Melhor não acordar ao teu lado. Pra sempre adeus. Está dito.
Você não disse isso! Digo que digo sim e porque foi o que estava me permeando, pra sempre sempre e nunca. Nunca! Foi isso que segurou meu corpo ali preso. Pronto. Estou contra mim, contra partida e corrente amarrada; correntes nos braços e naquelas mãos só tuas - naquele dia. Não divido com ninguém. Atenta. Não há horas nem tempo contínuo. Amasso as bolinhas e volto para a bolha. A música tentando entrar no fluxo descontínuo de sinais que capto, capto às vezes e me entrego unicamente. Nesta hora entrei na tua bolha, foi lindo. Até eu entrar dentro da caixa de - malboro - vazia e ficar lá dentro pra sempre. Um buraco e um brinco, duas línguas e quatro brincos. Outro buraco onde a luzinha acendeu e voei longe e pra sempre é pronto, nunca mais.

12.11.02

Dormi te amando. Várias vezes, eu disse antes como numa tentativa de mandar até você o que eu sentia. Então eu dormi, e sonhei. E no sonho haviam bruxas em vassouras, eu disse que acreditava, e mesmo vendo não me surpreendi tanto. Bruxas no céu, dia das bruxas, algo do tipo. Mas um dilúvio destruiu toda a cidade, que estava mesmo estranha e acinzentada e normal. Até que o mar começou a se agitar e uma onda gigantesca se aproximou sem que houvesse tempo pra correr. Estranhamente eu subi numa porta e me pendurei, como um morcego, de cabeça pra baixo. As ondas vinham, destruindo tudo, inclusive as pessoas. Mas meus joelhos eram fortes, e eu não caía. Sentia a dor muito mais forte, e a onda aumentava e caía sobre a cidade. Eu aguentava e mais outra onda vinha, era terrível, pensei que não ia aguentar, meus joelhos estavam imóveis e duros, eu sentia, e vi alguém ao lado, enxarcado. Pedi ajuda pra descer. A maré baixou. Ele me ajudou e passeamos sobre os destroços. Depois eu acordei te amando outra vez, lembrando daquele beijo, que ficou marcado na minha memória, até mesmo depois daquele dia. Depois que acordei.

31.1.02

Relações relativas

Aconteceu enquanto ela espremia um cravo no nariz. Em todos tipos relacionamentos existem algumas banalidades que tendem promover separação entre as pessoas, outras que tendem a aproximá-las (de si mesmas). Mas tudo é relativo...

" O que aconteceria se ele/ ela morresse? "

Parou imediatamente! Não queria que seu rosto ficasse marcado novamente por mais uma de suas efêmeras unhas. Tinha o costume de passar o tempo remoendo e roendo as unhas das coisas ditas enquanto se espremia. Rosto, sovaco, virilha, tornozelo, barriga, seios - passeio por todos os orifícios. Seus melhores pensamentos vinham enquanto ela apertava sua pele e cautelosamente sentia o ácaro saindo de seus poros. Assim como quando comia chocolate, apertava devagarinho, para não perder nenhuma brecha da prazerosa descarga de endorfina - o hormônio que alivia as dores, naturalmente. Infelizmente, as endorfinas não trabalham por muito tempo. Ela já havia perdido muito tempo e a morte viria - solução?

Livrar-se dos cravos de forma despretensiosa seria a saída mais eficiente encontrada para seu estado de inquietação perante a rotina maldita . Ausência de motivos. O encarar-se com o espelho, em certos casos, é um exercício vicioso de dor e angústia.

Fantasia de morte.

O espelho refletia seus defeitos, detalhadamente. Sua imagem sedentária envelhecia aos poucos. Percebia. O espelho; o olhar para si mesma. O espelho; o cravo. O espelho; a rotina. O espelho; as unhas pretas. Um branco de pensamentos amarrados, amarelo envelhecidos. Na maioria, essas fantasias são compensadas por uma dolorosa trepada com seus devaneios. A questão é que era realmente necessário conhecer algo diferente antes que...

" O que aconteceria se eu a/o matasse?"

Sujas e inúteis amarras. Passaria alguns anos encarcerada - por um momento isso não lhe pareceu tão ruim assim. Como resultado premeditado, pensou no aumento de alguns prováveis cigarros que fumaria na vida. O corpo entre quatro paredes aprisionadas, acompanhada tão somente de pensamentos atolados num mar de poeira cinza; infinita. Obviamente, pensou na sensação de sentir-se só em meio a muita gente que se sente só - a solidão coletiva é das piores. Até aqui valeria a pena matar. Seria diferente e até provável que o fizesse, se não tivesse tanta pena de gente. Tinha pena de tanta coisa (dos bichinhos do zoológico, da fome, da viuvez de sua mãe, da velhice surda de seu avô) menos de si mesma. Nada de piedades. Nunca foi dessas que se queixam às dores das penas vida. Gostava das dores, que além de doerem, lhe traziam deliciosas e inquietantes perguntas sem respostas. Sentia tudo e se sentia mais viva.

É importante que as pessoas estejam dispostas a discutir questões idiotas a tempo, antes que elas se transformem em Gigantes-Monstros-do-Pensamento.

Uma simples sentença pôde mudar a direção do seu pensamento, ou, de sua vida. Quem foi que disse isso? Nunca importa por quem foi dito, mas sim, o que foi absorvido pelos sentidos - sentido. As palavras voavam perdidas em seu pensamento horas e dias depois das conversas que tinha com as mais diferentes espécies de gente parecida. Seguia levando a sério muitas sentenças que ouvia. A palavra sentia dor, se fazendo ferir.

"(...) Nos caminhos, em noites de inverno, sem pouso, sem roupa, sem comida, uma voz me estreitava o coração gelado: 'Fraqueza ou força: aí estás, é força. Não sabes aonde vais nem por que vais, mas entra em toda parte, aberto a tudo. Não te matarão mais do que já fosses cadáver.' Pela manhã meu olhar era tão vago e minha aparência tão morta, que as pessoas que encontrei talvez nem me tenham visto." Arthur Rimbaud - Uma estadia no inferno.

Indiferença e influência. Deu um tiro em sua mão direita. Seria sempre necessário que uma deficiência, indiferença ou influência lhe mostrasse que podes ir além do previsto? Nenhuma dor é insuportável, então, suportou a dor de sobreviver. Sem respostas, duas mãos; duas mãos ela tinha e só usava uma, uma mão agora. E a pergunta? Aos poucos e todo dia, ela percebia que outras questões apareciam em forma de palavras soltas. Fraqueza, força, dores, toda parte, conteúdo, tudo. É inútil usar o pensamento quando aparecem perguntas que transcendem a distinção entre opostos.

A imaginação goza.

Sentia um vazio diferente que devia ser dor ou decepção ou indiferença ou solidão ou cansaço ou mutação ou nada ou palavra ou visão ou pensamento ou tudo ou espelho ou absurdo ou cravo ou morte ou prisão ou crise ou separação ou sonho ou susto ou idiotice ou impossível ou limitação ou hormônio ou unha ou dúvida ou culpa ou frio ou impulso ou verme ou suor ou respiração ou Rimbaud ou silêncio ou furo ou pessimismo ou bizarrice ou cleptomania ou pêlo ou nojo ou percepção ou crença ou velhice ou espaço ou tesão ou felicidade ou drama ou viagem ou confusão ou razão ou outra dimensão ou acaso ou infortúnio ou egoísmo ou remorso ou idiotice ou palavra ou coisa ou acaso ou óbvio ou buraco ou mão...

Tamara Costa


:::posted by Tamara Costa