14.9.12

parando o mundo, uma técnica yaqui


"(...). Dom Juan procurou descrever o mundo para mim, desde a primeira vez que conversamos. A dificuldade em entender seus conceitos e métodos devia-se ao fato de que as unidades de sua descrição eram estranhas e incompatíveis com as minhas.

O argumento dele era que me estava ensinando a "ver" em oposição a simplesmente "olhar" e que "parar o mundo" era o primeiro passo para "ver".

Durante anos eu considerava a ideia de "parar o mundo" uma metáfora misteriosa que não queria dizer nada, na verdade. Foi só durante uma conversa informal que se realizou no final de minha aprendizagem que eu vim a compreender plenamente seu âmbito e importância como uma das teses centrais do conhecimento de Dom Juan.

Estávamos conversando sobre vários assuntos, de maneira informal. Contei-lhe a respeito de um amigo meu e seu dilema com o filho de nove anos. O menino, que tinha morado com a mãe nos últimos quatro anos, estava no momento morando com meu amigo, e o problema era o que fazer com o garoto. Segundo meu amigo, o pequeno era desajustado na escola; não se concentrava e não se interessava por nada. Era dado a crises de raiva, mau comportamento e fugia de casa.

- Seu amigo tem mesmo um problema - desse Dom Juan, rindo.

Eu queria continuar a contar-lhe todas as coisas "terríveis" que o garoto tinha feito, mas ele me interrompeu.

- Não precisa dizer mais nada sobre o coitado do menino - falou. - Não há necessidade de você ou eu pensarmos nos atos  dele, de uma maneira ou de outra.

O jeito dele era abrupto e sua voz firme, mas então ele sorriu.

- O que meu amigo pode fazer? - perguntei.
- O pior que ele poderia fazer era forçar o garoto a concordar com ele.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que aquele menino não deve ser espancado, nem assustado pelo pai quando não se comporta do jeito que o mesmo deseja.
- Como é que o pai poderá ensinar alguma coisa, se não for enérgico com ele?
- Seu amigo deve deixar que outra pessoa bata no menino.
- Ele não pode deixar que outra pessoa bata no filhinho dele! - repliquei, supreendido com essa sugestão. Dom Juan pareceu divertir-se com minha reação e deu uma risada.
- Seu amigo não é um guerreiro - disse ele. - Se fosse, saberia que a pior coisa que se pode fazer é confrontar os seres humanos de cara.
- O que faz um guerreiro, Dom Juan?
- Um guerreiro prossegue estrategicamente.
- Ainda não entendo o que quer dizer.
- Quero dizer que, se seu amigo fosse um guerreiro, ajustaria o filho a parar o mundo.
- Como é que meu amigo pode fazer isso?
- Ele precisaria de um verdadeiro poder pessoal. Precisaria ser feiticeiro.
- Mas ele não é.
- Nesse caso, tem que usar meios comuns para ajustar o filho no sentido de mudar sua concepção de mundo. Não é parar o mundo, mas tem  mesmo efeito.

Pedi que ele explicasse suas palavras.

- Se eu fosse seu amigo - disse Dom Juan - começaria contratando alguém para surrar o garotinho. Iria a um antro de marginais e contrataria o tipo mais mal-encarado que encontrasse.
- Para assustar o guri?
- Não só para assustar o guri, seu bobo. Aquele pequeno tem que ser parado, e ser surrado pelo pai não fará. Se a gente quer parar seus semelhantes, deve-se estar sempre fora do círculo que os oprime. Assim, a gente sempre pode dirigir a pressão.

A ideia era absurda, mas, de certo modo, atraia-me.

Dom Juan estava com o queixo apoiado em sua palma esquerda. Seu braço esquerdo estava apoiado junto ao peito, num caixote que servia de mesinha. Ele estava de olhos fechados, mas seus olhos se mexiam. Senti que ele estava olhando através das pálpebras fechadas. Essa ideia me assustou.

- Diga-me o que mais meu amigo deve fazer com seu filhinho.
- Diga-lhe que vá a um antro de marginais e escolha com muito cuidado um bandido muito mal-encarado - continuou. - Deve escolher um jovem. Um que ainda tenha força.

Dom Juan, então, expôs uma estratégia estranha. Eu devia dizer a meu amigo que mandasse o sujeito segui-lo, ou esperar por ele num lugar onde ele fosse com o filho. O homem, diante de uma deixa previamente combinada, a ser dada depois de algum mau comportamento da criança, deveria saltar de seu esconderijo, pegar o pequeno e surra-lo com vontade.

- E se isso fizer mal a ele?
- Um susto nunca faz mal a ninguém. O que faz mal ao espírito é ter sempre alguém atrás da gente, dando na gente, dizendo o que se pode ou o que não se pode fazer.

- Quando o menino ficar mais comportado, você deve dizer a seu amigo pra fazer uma última coisa por ele. Tem de arranjar um meio de ver uma criança morta, talvez num hospital ou numa clinica de um médico. Deve levar o filho até lá e mostrar a criança morta para ele. Tem que providenciar para que o menino toque no cadáver uma vez com a mão esquerda, em qualquer lugar, menos na barriga. Depois que o menino fizer isso, ficará novo. O mundo nunca mais será o mesmo para ele.

Compreendi então que durante os anos de nossa ligação, Dom Juan tinha empregado comigo, embora em escala diferente, as mesmas táticas que estava sugerindo que meu amigo usasse com o filho. Perguntei-lhe a respeito. Respondeu que todo aquele tempo ele estava tentando ensinar-me a "parar o mundo". 


CASTANEDA, Carlos. Viagem a Ixtlan (introdução, trechos destacados por mim). Record, São Paulo: 1972. 

9.9.12

atención, mutación

Julio Cortázar. Buenos Aires, 1940. Archivo Aurora Bernárdez, Coll CGA (El Mundo)


"Cuando siento que voy a vomitar un conejito, me pongo dos dedos en la boca como una pinza abierta, y espero sentir en la garganta la pelusa tibia que sube como una efervecencia de sal de frutas. Todo es veloz e higiénico, transcurre en un brevíssimo instante. Saco los dedos de la boca, y en ellos traigo sujeto por las orejas a un conejito blanco. El conejito parece contento, es um conejito normal y perfecto, sólo que muy pequeño, pequeño como un conejito de chocolate pero blanco y enteramente un conejito. Me pongo en la palma de la mano, le alzo la pelusa con una caricia de los dedos, ele conejito parece satisfecho de haber nacido y bulle y pega el hocico contra mi piel..."

Carta a una senõrita de Paris, Julio Cortázar.

4.9.12

coisacomcoisa.org #5



Texto: tamara/ Edição: marcus póvoa
ver também: edição #5 completa

31.8.12

dystopic I (exercício)

dedicado a Denise, my dinilso


ela mora na Rua Do Super-Lado da Quadra-de-Lá
tem os braços de Shiva que giram involuntários quando pressionam seu corpo
contra ele mesmo

é quarta-feira de Cinzas de um ano bissexto
desfigurada sai em busca de receitas
Ciclobenzaprina?
Venlafazina?
sutis navalhas,
música que acalma

Cínica Ser, Lago Norte, Brasília
acorda anestesiada numa mesa de operação
cabeça decaptada
- há um microship inserido no punho direito
& sua cabeça não está mais lá:
"no crejo"

levanta e segue varanda
acende um cigarro que lhe traga até o cotovelo 

o Menino de Mochila grita embaixo do bloco
Place Vendôme, 310 Norte
ela desce e são águas:
gondoleiro veneziano, rumos de barcos e Ferrez Fora de Tudo
óculos e phones

seguem até estação do trem
passam pela Feira,
importardos bicentenários
volta Noroeste, 
estranho espírito tatuado de prédios retilíneos que anulam
avenidas
perspectivas
pajés
santuários
reserva
macacos
pássaros

carros, só carros

acende outro cigarro que traga até seu peito
sinais de semáforos



tamara e costa


1.8.12

Revista Arraia PajeúrBR (dois lançamentos)


na Funarte SP


na Casa das Rosas (SP)

via TV Cronópios


Evoé!

17.7.12

Lançamento Arraia PajéurBR #4: duas antologias




Convite | lançamento: Revista Arraia PajéurBR nº4


Para minha surpresa e contentamento, soube ontem pelo Pipol que o conto “Das cavalidades”, publicado no início de 2010 no Cronópios, foi selecionado pelos idealizadores caótica revista Arraia PajéuBR, de Fortaleza. No que consta nos anais cibernéticos, a revista foi lançada em 2000
. Ad infinitum, pois, a revistação está de volta, com o apoio do Minc.

"O formato é singular. Em vez das tradicionais linhas retangulares, a forma predominante é triangular, referência imediata às velas das jangadas cearenses. Ou não. Quando aberta, a revista remete ao popular brinquedo infantil que lhe nomeia, a arraia. Ou nem tanto. Há quem acredite que se pareça mesmo com a regionalíssima bandeirinha junina. Mas é assim mesmo. Impossível ter uma leitura fechada quando se trata de uma publicação idealizada pelo escritor Carlos Emílio Correia Lima com o objetivo de ``mudar o eixo'', ``preencher um vácuo no mercado editorial brasileiro'', `provocar indagações'. Boa idéia embalada em caos, jornal O Povo (2000).


"... além  das antologias, há uma entrevista e uma crônica inédita de Rubem Braga, o maior cronista da história de nossa literatrua, uma outra entrevista também inédita com  a escritora Hilda Hilst, uma antologia com 12 poetas contemporâneos do estado  do Espírito Santo, uma reavalização da verdadeira natureza canônica do cordel, por Aderaldo Luciano, ficções inéditas de Jackson Sampaio, Rodrigo Garcia Lopes, Edvar Costa, Barros Pinho, Bráulio Tavares. Poemas inéditos de Antonio José Soares Brandão, Horácio Costa, Leo Mackellene, Alberto Pucheu,entre outros poetas. Um texto ocultista do célebre compositor e criador de instrumentos Walter Smetak, uma entrevista com o  pintor peruano Juan Zapotec e um caderno de pinturas desse artista plástico que ilustrou as duas capas da revista, entre muitas outras atrações criativas." A volta da Arraia Pajéurbe, Papo Cult (2012).





ver também: arraiapajéurBR.com (formato zen digital)

16.7.12

Contologia & Poematologia do Cronópios



Editor: Carlos Emílio C. Lima
Organização das antologias: Carlos Emílio C. Lima, Cláudio Portella e Pipol.
Projeto gráfico: Augusto Oliviera e Carlos Emílio C. Lima.

Lista completa dos poetas de todo o país incluídos na Contologia Portal Cronópios/Arraia PajéurBR:
TERE TAVARES, MAURO PAZ, VALTER FERRAZ,VERA HELENA ROSSI, RAFAEL SPERLING, ELEONORA DUCERISIER, PEDRO COSTA REIS, JOSÉ ANTÔNIO CAVALCANTI, MÁRCIA BARBIERI, LEANDRO MAYFAIR, LETÍCIA PALMEIRA, WILAME PRADO, FILIPE JARDIM,WALDEMIR MARQUES, EMÍLIA BARBÉS, UDO ...BAINGO, AFONSO JUNIOR FERREIRA DE LIMA, ALEX SENS FUZIY, DOUGLAS EVANGELISTA, ALEKSANDRO COSTA, DANIEL LOPES, LARISSA MARQUES, AMANDA VOX, CAMILA FORTUNATO, LUAN MAITAN, IVAN GUARDIA, WALTER SOLON, IGOR FARIAS, DANIEL MATOS, TAMARA COSTA, MIRTES LEAL, ÁLVARO DIAS CUBA, RONIE VON ROSA MARTINS, AIRTON UCHOA NETO, NINA RIZZI, JULIANA FRANK, ANDRÉIA DONADON LEAL, SUELI MAIA, MILENA MARTINS, PAULO MOHYLOVSKI, HUGO CREMA, EDUARDO SABINO, TIAGO BASÍLIO DONOSO, POTYGUARA ALENCAR, ANTÔNIO ALVES JUNIOR, GUILHERME COBELO, EDUARDO SIGRIST, MARCIO G. PERFETTO, JANA LAUXEN, BRUNA G. GALVÃO, SHEYLA SMANIOTO MACEDO, ADRIANO DO VALE, PEDRO COSTA, DANIEL FERREIRA, LUCINEIDE SOUTO, JONATAN DOLL, EDUARDO ESCARPINELI, GLAUCO LEANDRO, EDSON COELHO.



ver também:

15.7.12

aglutinei

5 poemas de tamara e costa na mallarmargens - revista de poesia & arte contemporânea.



10.7.12

coisa com coisa #5



edição #5 no ar!

28.6.12

Tertúlia: Hilda Hilst por Claudio Willer


O programa Tertúlia (Sesc TV) revisita a obra da dramaturga, escritora e poetisa Hilda Hilst, pela percepção do poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer. 

26.6.12

Sob O Entardecer dos Relógios

dos lençóis
o sol se espreguiça
quis ver, não
cidades tão caretas para corpos de verdade 
músculo e gargalhada
ouvi, nadis
janelas nunca verão nossas lágrimas

que a rua se vá

volto daqui a pouco com o café
você veio 
com um daqueles raios agarrado à coxa esquerda

quase vi
era quase sem bom dia?

me dispus em mil-e-uma-noites
piteira na mão e uma verve inesquecível para formigas
que rondam a cama 
prancha solta no ar de outono 
toda base de nosso papel
trabalho nosso livre de fracasso 

me despi no inverno
plexo aberto 

um caviloso arco me apontava um raio pelo cigarro
incêndio por dentro de tuas coxas
acendo
você se volta toda

fumaça turva
sob a luz do sol coberto
ela enorme
quase foi, não agora
espera o cano esfriar entre os pelos 

que a rua se vá

no estrado
o terceiro dedo do pé
no parapeito
o estrago de cada borda que nos obriga
no espasmo
bela maneira de se distrair
com a tarde que massageia os cílios 
e faz de nus novos nós

quase vi
era quase foda boa?

me esfacelaria na madrugada das mil pétalas
copo entalado na garganta carrega memorável cano de mirar intrigas
elas se instalaram no teto 
papéis cobriram o fogo que lambia teu umbigo

me obrigo
raiz de teus cabelos

uma violeta violenta me aproximava da raiz
um esponjoso catarro passe para novo estalo
mira de tuas coxas
apago
você me dá força

que a rua se vá
para longe
bem longe
de nossos passos

(Tamara Costa/ Paulo Sposati Ortiz)

8.6.12

"À Vida" (1924), de Marina Tsvetáieva (2 traduções)


À VIDA  
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.

[de Marina Tsvetáieva, Tradução de Haroldo de Campos]


À VIDA  
Não colherás no meu rosto sem ruga

A cor, violenta correnteza.

És caçadora — eu não sou presa.

És a perseguição — eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes — o corcel.


Árabe.

[de Marina Tsvetáieva, Tradução de Augusto de Campos]  

via Bula revista.



Caros, 
É de meu profundo interesse qualquer relato/tradução/texto/trabalho que trate da vida e obra da escritora russa Marina Tsvetáieva. Em minhas buscas, encontrei poucas referências e leituras, além de Vivendo sob o fogo, livro cedido alguns anos passados por Juliet Jones. Apesar da indiferença parisiense literária da época e de atualmente ser considerada "um dos maiores escritores do século XX", segundo a apresentação da obra, ainda permanece pouco divulgada.  Ouvimos falar dos russos, e as russas? Caso tenham algo a compartilhar à este ou aquele respeito, desde já, agradeço. Originais também são bem vindos.

Att,
T.

20.5.12

Passo E Passo Sem Encontrar Volta


Primeiro a parede de néon, áries com sagitários, depois aquela história toda de dizer que ama muito qualquer coisa, coisa nenhuma

Você sabia de toda a carnificina que eram os meus olhos, veio com aquelas paredes ridículas cheias de anjinhos, o caralho a quatro, me investigando de costas e eu, eu, uma vírgula no seu corredor sem vasos

Depois minha pausa, corda que se estica, mesmo de longe desfiz teu nó de fita, osso sacro curvado entre duas três pintas, vago situado pele sem traço, constelação vermelho teus sinais de sol opaco, o tempo, o tempo todo

Fôlego nenhum alcança o velocípede da paixão, toda nuinha, como eu amo ouvir os guinchos janela afora, fiz figa e os dedos tiveram vergonha, vamos brincar de pula-pula?

Adiante um dia, duração de cabeças, quadris e superior das coxas, abaixo as horas e no tempo de minha casa tua, levanta e abre a porta, brinca, calcula, acorda, acorda

É imprescindível se erguer por ora, a manhã nos reclama, vai tomar no meio da sua rodela, as janelas elas sim nos odeiam, o cobertor mapa de sonhos não entraremos nunca mais no país do sono


(Poema-parceria Paulo Sposati Ortiz & tamara e costa)

16.5.12


na escada do vento
o sonho
folha que cura pequeno exu que
dança extático
[...]

trecho de “incorporando o jaguar”, Cliclones, Roberto Piva. Incluído no terceiro volume de suas Obras reunidas, Estranhos sinais de Saturno, Ed. Globo, 2008. 


Aoish, homem de negócios, me trazia também as histórias de sua mulher no intervalo da contabilidade. A cada desenrolar de novelo, entre os saldos “Mas por que são tão complicadas?”. Eu dava um sorrisinho repetido, amigável, como quem diz “Te vira negão. Problema teu”. Meu lance com Aoish eram os câmbios, tão somente. Nos encontrávamos uma vez por mês. Nos intervalos, de mente vazia, eu pensava sobre a questão. Um dia eu disse: “EU Aoish? Na minha opinião?”. Desinteressado em algo do tipo que não fosse negociação, levava os dólares do câmbio enquanto eu saía com o segredo. O cara tinha um insistente devaneio apaixonado de ir para a cama com outra mulher que não a dele. Saía sozinho, noite paga com os centavos que arredondava, metia uma duas três, mas não conseguia chegar lá. Quando estava quase, mas quase mesmo, lá naquele ponto que não dá mais recuo, tinha a tal visão. Via-se externo ao próprio corpo empunhando uma vingativa. Chocado, dizia “Não consigo entender mesmo mulher” e seguia luta para viver. Não morto, porém triste, queixo no peito, atravessava de volta as avenidas despedindo-se de perspectivas si mesmo, derrota cônscia e limitação em olhos que não podiam defrontar-se no espelho. É isso aí, quem sabe um dia, Aoish, quem sabe no dia que ela sumir. Na última troca, o cara chegou com uma faixa lhe assentando a cabeça. “Me fodi. Agora dá pra todo mundo ver...”, sentou e desatou a falar, como de praxe, que não suportava que duvidassem de sua honestidade. Arrendondava sim quantias a seu favor, argh, rum rum, mas “roubava quase nada”. Na noite anterior, o ladrão entrou pela janela e bagunçou-lhe a casa toda. Tinha levado muito pouco, além da papelada, quase nada, se comparado à seu temor de que o bandido tivesse sacado o caixa dois com a vantagem dos centavos. Enquanto ia sendo subtraído, abriu o portão e deu de cara com a mulher do tamanho de uma ervilha roendo uma gigante espiga vingativa de fronte para a reprodução. Mirou-se, abrindo buraco no coronário. Em seguida abriu a gaveta, pegou as moedas e começou a tapá-lo.

* Conto-exercício para a Oficina do Marcelino. 
Categoria intitulados porém ariscos. 

ver também: Coisa com Coisa #4

13.5.12

PALÁCIO SUBLIME DESENCARNADO


para minha cara amada Julieta

Em tua carne mística eu vejo o êxtase do maravilhoso possível do aqui
a manifestação divina do agora como gozo numa noite asteroide
a desobediência ao código ascendendo em círculo do subterrâneo interior
o reencontro com a superação do verme humano podre negligenciado.

Em nome da tua força, cara minha
rememoro transcendência de teu bucho menininho soprando repetido gaita para a luz vermelha
- o incrível nos olhos dele é como o que há nos teus.

Em nome do teu amor, amoer deles,
realinho escritura única capaz de tecer manta mapa do grande universo:
ponto voador de disco tatuado de plexo
pássaro escuro curvado em nosso cérebro macaco.

Em estado de graça, irmanita, aqui proclamado
o fim da vergonha e do medo e da morte
- porque te vejo sempre ao meu lado e sem você não poderia ter sido.

                    Em nome de tua alma eterna ergo palácio sublime desencarnado:


leão verde e vermelho
dragão envenenado     
ovo cósmico serpenteado 
deva de mil olhos e braços
gordos budas descansados
senhoras e senhoritas carudas de todas as turas
andróginos de pintos e xotas jamais tocados
crânio de elohim e sol de pescoços cortados
joanas e juventudes e purezas e todos loucos vorazes
bolas de fogo sopradas por cátaros visionários.



 #1 (Afraid - David Bowie) - What made my life so wonderful, What made me feel so bad?

12.5.12

"[...]Como diz Edoardo Sanguinetti: 'O Surreslismo é o fantasma que, com toda a justiça, persegue as vanguardas e lhes nega um sono tranquilo'. Com a costela do Kapitalismo foi criada a Panacéia Socialista. O Forró Nuclear é a medida da Riqueza das Nações. As soluções em poesia são individuais e não coletivas. Eu estou com Gilberto Vasconcelos: depois que joguei a obra completa de Marx pela janela, comecei a compreender o Brasil. Fora isto o seguinte: Poesia é uma forma de conhecimento que vê através de objetos opacos, como uma viagem de LSD e estados mediúnicos de levitação. [...]" Roberto Piva, todo poeta é marginal, desde que foi expulso da república de platão, via Recanto Marginal.

6.4.12

ShorThings: envie um miniconto

Is There Anybody Out There? Então escreve!
by Rafa Rodrigues
Pequenas, pequenitas, medianas pra menor. Micro-biológicas. Microscópicas. Just Very Short Stories. E o mais legal de todos: o interativo. Só mandar pro e-mail rafitarodrigues@gmail.com e logo logo ela aparecerá no Short Things! ↓

16.3.12

unabomber Maiakóvski

DE "V INTERNACIONAL"


Eu à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo "A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidadade
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

1922
MAIAKÓVSKI; poemas | traduzido por Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos. 

12.3.12

Alan Moore, Hilda Hilst, Julio Cortázar, as ideias e o fogo

ALAN MOORE: V FOR VENDETTA




HILDA HILST: POEMAS AOS HOMENS DO NOSSO TEMPO I
homenagem a Alexander Solzhenitsyn

Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensemos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafacção dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.

A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engulido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engulidos
Deixarão suas heranças, suas memórias

A IDÉIA, meus senhores

E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.

Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante
Fazedor da palavra

Do que na mão que esmaga.

A IDÉIA é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens é mais vasto
Do que a voracidade que nos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco
Aos vossos olhos possa parecer.
(pág. 250, HILDA HILST - Obra poética reunida).




"Que conciliação é essa sem a qual a vida não passa de uma obscura piada? [...] se há conciliação, tem de ser outra coisa que não um estado de santidade, estado excludente desde o início. Tem de ser algo imanente, sem sacrifício do chumbo pelo ouro, do celofane pelo cristal, do menos pelo mais; a insensatez, ao contrário, exige que o chumbo valha o mesmo que o ouro, que o mais esteja no menos. Uma alquimia, uma geometria não-euclidiana, uma indeterminação up to date para as operações do espírito e dos seus frutos. Não se trata de subir, de decantar, de resgatar, de escolher, de livre-arbitrar, de ir do alfa ao ômega. Já se está. Qualquer um já está. O disparo está na pistola; mas é preciso apertar o gatilho, e o dedo está fazendo sinais para fazer parar o ônibus ou qualquer coisa assim".
(pág. 507, JULIO CORTÁZAR, O Jogo da Amarelinha, Círculo do Livro: 1968).