24.3.20

Volta (1)

Estou com dificuldade de deixar meu olho fechado, movimento involuntário, com um sentimento de controle. Acho que são 3 pessoas, estão em uma chácara, tem um caminho no qual estamos indo para a casa, parece alguma das na qual eu já fui mas não é. Tem uma pessoa dentro da casa, ela tem uma área fora, depois um caminho com porteira e cerca, tem um cavalo. Estamos indo ver uma pessoa velha, doente, me dá muita tristeza, ela está doente, não sei se sou eu, eu estou sozinha, atravesso um ligar branco e estou chorando, não sei se eu estou na casa, se estou nesse lugar, se estou morrendo. Eu estou sentindo que eu vou morrer.  Estou sozinha, não tem ninguém comigo, só tem o cavalo. Eu não sei se eu estou viva ou morta, não tenho senso de realidade. Chega um médico, mas eu não sei se sou eu. Ela está esquisita. Ele parece um medico. Tem alguma coisa com a minha pele, parece podre. Eu não quero que ele chegue perto, acho que eu estou podre, tem uns paninhos para colocar, porque ela está toda ferida. Ele quer botar os paninhos, eu não sei se isso é contagioso, ele vai botando os paninhos, parecem gases, no braço, estou de vestido, parece que eu estou podre. Vai tampando tudo, vai colocando muitas gases, vai tampando, eu me sinto um pouco melhor com as gases, ele vai embora e me deixa com as gases e o cavalo. Tem um jardim ao redor da casa, tem flores, eu volto pra casa, tem fogão de lenha, parece que é tudo mais tranquilo com as gases, minha pele não está tão podre. Parece que estou em carne viva, meio pele, mas tem os curativos e as gases. Tem uma menininha, ela parece uma indiazinha, ela me abraça, parece que estou um pouco melhor com as gases. Ela olha. A menininha fica olhando o que tem dentro, ela sai da casa, e a velha vai na porta ver, tem mato e o quintal, ela vai indo pelo mato e a velha vai indo atrás, a menininha sobe na pedra, pula na água, mergulha, sai, senta na pedra, a velha está lá perto dela, ela joga água em mim, eu sinto uma emoção muito forte, ela me molha brinca comigo, a gente sai andando pelo mato, a menininha quer me levar em uma casa de barro, de pau e madeira, tem uma moça que parece que é a mãe dela, acho que é minha filha, a filha da velha, estamos as três na cozinha, eu já não estou pensando mais, estou com a menininha sai de casa, eu fico com essa moça, ela tem um cabelo bem pretinho, eu também. A moça está grávida, estamos nesse lugar onde mora todo mundo perto, tem o rio e várias casas, minha casa parece que está boa, que a outra era de barro, a minha era de cimento, no quarto tem uma bacia para ela lavar o pé e deitar. Tem um cara que chega na janela, de chapéu, eu já estava deitada, ele entra na casa, de bota, está sujo, tem uma arma, parece esquisito e meio ruim, ele tira o chapéu, a arma, a bota, vai no fogão, a velha vê que ele chegou, senta na cama, ela anda arrastando, ele é o marido dela, é mais novo, eles estão na cozinha conversando, ele fala do trabalho, ela se sente mais jovem quando está com ele, não parece que é tão velha, ele sai, pega o chapéu, ele vai pra longe, pra depois da cerca, está a cavalo. Tem esse cavalo que é um cavalo de casa, que é um cavalo que é muito amigo, ela gosta de arrumar esse cavalo, ela abraça o cavalo, já não é mas tão velha, vai andando com o cavalo correndo, ela para com o cavalo, vê a paisagem, está com um vestido florido bonito, ela vai andando para um lugar bem claro, ela abraça o cavalo, ela gosta muito desse cavalo, ele parece que corresponde, ele é marrom, parece que o cavalo tem uma inteligência, ele vai andando solto, ela vai andando atrás, está levando ela para outro lugar, chega onde tem um monte e cavalos, muito bonitos, muito bonitos. Tem um monte de cavalos. Vem um cara forte, ele coloca a mão na cabeça dela, no peito, pega a mão dela e vai levando ela... leva para um lugar com montanhas de gramas verdes, tem outras pessoas, elas olham bem nos olhos, lá no fundo, se falam olhando, o moço a continua chamando para ela se sentar em uma cadeira alta, com encosto bem alto, ele olha para ela, mas
não fala nada, ele fala só com o olhar, passa a mão no braço sem encostar, ela está com uma roupa branca, parece que tudo nesse local está bem luminoso, que tem um sol, que está iluminando tudo dourado, o tratamento é ficar sentada na cadeira tomando sol, os raios do sol. Ela vê as pessoas daquele lugar, eles se olham muito, as conversas são por telepatia. Ela aprende uma coisa com as mãos que coloca os raios, ela pode colocar os raios nela com as mãos e passar no corpo todo, tem um dourado, passar em todo corpo até dentro, tem um ponto roxo dentro dela, muito roxo, o ponto roxo é ela, é o que está dentro dela, a percepção é que esse ponto é muito importante. Cuidado aos mestres, orar. Com o tempo você vai saber como ter alegria. 

Em 6/8/2019


9.5.19

Voltando por questões de:
tá bem foda
por mais realidades possíveis (outras)
#landscape #flashbacks #paisagemmental
[achei que sobreviveria sem isso, eu tentei]
é possível viver sem likes
estou perdendo a memória e os sonhos
escrevendo pelo menos não esqueço
e volto a sonhar
pelo DIREITO À MEMÓRIA e à VERDADE
pelo menos agora a minha
não vai ser assim tudo tão legal nunca, mas quem disse que seria?
não achei que chegaríamos a esse ponto
não achei que voltaria
viajei demais, foi bem tão legal enquanto durou
mas eu voltei
parei porque não estava bom
critério restrito, medo de me afogar
mas a onda tá certa
e tem provado
onda demais pra mim
-BOIE!
medo de me afogar, mas não afogo eu sei nadar
agora é escrever ou sucumbir
pois eles chegaram:
e era isso que eu temia.

[não me dê sua raiva]

O que tá acontecendo?
Não adianta nadar, estou boiando.

Carreata na Rússia. No carro de som “acordacordacorda”. Anos 60 ou antes. Megafone na avenida. Estamos numa van. Descemos na parada de ônibus. A prostituta robótica despenca o dorso nas pernas, enverga total e abre o cu. Um cara chega, vai enfiar o pau e vê que de lá de dentro bichos se movimentam. Ele enfia a mão e saem são bem coloridos, de gelatina. Estão bem vivos, são geloucos. Tentamos capturá-los e é com a boca. São vários, tá aumentando. Dois bichinhos pulando/voando entram no mato. Dois caras em cima da parada de ônibus tentando mirá-los: um sapo e uma borboleta. Os caras não querem engolir, não conseguimos. Algo diz que será pior deixá-los a solto, dá-se um jeito e engole-se.

Novas realidades,
aceites.

Outros pontos de vista,
aceites também.

Daí tem uma coisa que não aceito
e enfim aceito que tem coisa que não é possível aceitar.

Na astróloga:
Casa sem planeta.

No iridólogo:
Ponto no lado/olho esquerdo de muita expansão mental/criativa - precisa oxigenar e ofertar.

No Daime:
Bateu legal Geraldo Azevedo.

No proctologista:
Colonoscopia!

Na ginecologista:
Qual é seu nome?
Cocaína.

No psiquiatra:
Tá belíssima mesmo essa suculenta vermelha....
Mas é artificial.

Na psicóloga:
"Eu tenho a minha dor a dor é minha é de quem tem..."

Pontos de partida (poemas)

Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

[Allen Ginsberg, trecho do poema "Sutra do girassol" (tradução de Claudio Willer)]

para Floriano Martins

CARAVANA SOLAR | Em Brasília

I
oração que me atravessa –
linguagem, território, força elétrica
ah, meu corpo estrela adormecida
encostado à luz na página brilhante e vazia

[como fazem as crianças tecnicolor]

abandono pedras que rebolam barro
lateral da encosta alço topo
fumaça no vazio Chapada
compreendo, neutralizo
capto descida
desprendo subo nova
subindo estou em descida
espetada em galhos
arma alma branca minha:
escritura, estilo, magia.

hasta siempre veias abertas
ao rito, ato ritmo, harmonia
pulso só "chegue LÁ"
e só isso do outro lado ouço
osso américa atravessar latino
rasgo meu corpo
escritura, estilo, magia.

meus Eixos, Brasília
eu-veículo na brasa asfalto
queimo Brasília
no terrível do espelho, o fogo
cabeça dançarina explosiva.

seco também dentro
fora eram curvas retilíneas
rumos de territórios nunca antes
rotações, memórias, outras ilhas
tu, eu, quem?
Brasília
de turas, torrões, tâmaras, talismãs, Planaltina
invenções, novelas, novelos, ilhas,
cântigos, súplicas, uivos
palavra, plexo, trilha.

II
eu que não sou eu e que não serei mais eu até que enfim renasço novo sol que ascende e circula e se transforma e agora é imagem, duplo, semelhança ou você outra vez farsa ou máscara abaixo e adentro arquivo do que você fez com memória o que te deram e mostraram durante os anos que passaram a criança rememora quando era criança não sabia que era história quando olhou pela janela estava lua, num momento precipício completamente noite, rua, todos os defeitos donde salto com ponta e cabeça num riacho de escorpiões nado trilha até se cruzar com você remando contra a inundação de plexo que toma forma e ascende novo sol em direção à curva da alma sem freio colidem vênus, mercúrio e marte, terra vermelha, seca, você pisa e chão sente água emana frequência, terra secreta Brasília.

III
girassol azul está no cio por isso chora
uiva e estremece pequeno mundo de vidro
fera alegre púrpura rememora
melancolia que tem agora dentro e fora dentro e fora

cárdeo interior acredita na pequena revolução
repetindo estômago, dor e intestinos
vovó rojo ouve todo dia chamado plataforma
passaporte que ultrapassa carcaça no meio da testa

primo índigo recebe um zen-telegrama:
lágrima é lembrança arco-íris
risadas são códigos
apague a luz, não interfira no mundo.

IV
éramos incríveis espectros de crânios de girassóis
que lá em caverna feliz extraordinárias cabeleiras douradas
já escondiam por completo nossos próprios brilhos
éramos velhotas locomotivas de águas passadas
& ainda vagávamos em poeira doce e silenciosas dunas de áureo clima

nos faltava coragem para despencar destetrilho
donde o caminho da descida era montanha que nunca termina
donde a volta da viagem era a nunca volta
mundo além dessa porta

parece nítido, ovo explícito
éramos tubos envenenados
éramos descontraídos fogos de artifício.

V
avistamos o lago Paranoá em seu primeiro encontro com o mar. dispúnhamos de um arrogante filete de terra vermelha que nos possibilitara um rápido recuo para uma jovem e inconsequente panorâmica. recuerdos ressequidos enquanto certezas se evaporavam céu por detrás. plano aos poucos foi encharcado pela negra maré que subiu aterrissando – atravessando – o ancoradouro. monumento erguido agora encoberto de areia, água salgada e sobras permeadas de ADIOS. aqui me despeço: tatuagem de plexo, carta no papo e a brasa-eterna que muito ainda há de me alar. espesso, salto no asfalto pra depois voltar expresso de cores asfixiadas de céu. particularmente capoto em giratório nessa enxurrada que me aniquilou o mapa. ainda posso ver emendas abrandadas. deixo meu gesto puro "alô nós já estamos chegando lá" enquanto a natureza sopra a favor de si mesma. dolorido parto dessa, donde afundo nova onda animal, voluntariosa e profundamente irregular.

VI
espalho contrário, embaralho e disperso
deixo quieto depois volto e repasso
de trás pra frente dou jeito e depois largo
largo começo antes de desaparecer no trago
vejo esvaindo aquilo
alcanço vazio menino
fibras de tecido de vidro
bordas pra desamassar
lama entro deslizo furo
botas de judas furos
meus pés filhotes de gatos de duas cabeças me contam uma estória muito unha
de rasgos de lâminas e entradas de parafusos de nenhuma embocadura possível
tudo costura:
call vovó seio da fartura
chamada em espera
ouço só preciso osso, apenas ritmo.

VII
Na Rua Do Super-Lado da Quadra-de-Lá
menina braços de Shiva
dança o corpo contra ele mesmo

é quarta-feira de Cinzas de um ano bissexto
dissociada sai em busca de receitas
Ciclobenzaprina
Venlafaxina
navalhas mansas,
música, dança, serotonina

Cínica Ser, Lago Norte, Brasília
acorda anestesiada numa mesa de procedimento
cabeça decapitada
– há um microship inserido no punho direito
sua extremidade não está mais lá:
no creo.

levanta e segue varanda
acende um cigarro que lhe traga até o cotovelo
menino mochila grita terceiro andar do bloco
Place Vendôme, 310 Norte
ela sobe contra a correnteza:
rumos de barcas aterradas
ferrovias de varetas afiadas
passa Feira,
volta Noroeste,
estranho espírito tatuado de prédios que até o sexto anulam possível avenida de pura aurora
céu perspectiva
estranho espírito besuntado de asfalto
abre vala e lá estrangulam santuário, reserva, lobo guará do mato.

carros, só carros
Brasília
acende outro cigarro que traga até seu peito
sinais de semáforos.



NOITES EM CLARO | Em São Paulo

I
entre três tequilas e dois vacilos você me disse sim-sim com as mãozinhas de quem se abre ou como quem abre pilhas de poemas de Ferlinghetti que você estava escrevendo você não sabe mas aquela quote retotalizou e você continuava anotando tudo sem parar palavra por palavra era um cartapácio assim como me disse jovens havia algo em vocês ou entre vocês três e que existia algo que precisava ser repartido e já escrevia rapidamente no pulso e lembraria para sempre nada além do canto habilmente talvez um dia chegasse a ser algo que se aproximasse ou exprimisse ou ultrapassasse fosse eu chegada à tuas portas tuas casas uma sacola cheia de latas você vindo virado com o fumo e depois falaríamos hueras várias bocas pelas coisas indo e vindo vez uma o que não falávamos estava dito e você recitou uivo não poderia gastar janela o vento pensando em algo que não fosse vinho as contas por exemplo não sabíamos e isso era provável enquanto tira sabíamos não supondo escrever sobre aquilo que era belo e oculto e não me incomodava não mesmo teu não no meio do meu peito nada foi capaz de controlar o grande livro que ainda não fora traduzido e estava completamente pronto que abríssemos e trabalharíamos juntos e dentro do envolvimento completamente admirável palavra única nos unimos num feixe e fomos sucessivamente mais dentro possível e lá no encontro dos ossos luz morte vida dança gira até o topo da montanha do teu céu um colibri armado para o salto no grande parque que eram nossas cabeças de desafio à paralisa com espíritos altamente caprichados & livrado mesmo de todo porque era preciso não ter medo de ser rigorosamente único neste teu que é caminho e nos atravessa e segue ritmo pacto entre topo e utopia eternamente nus completamente nexo assim te quero caminhando até entrar a encosta ou o primeiro táxi que passar e consigo levar galáxias ao alcance te celebro.

II
Esta cidade
e sua ausência me doem
tirando as partes tristes
o resto está legal
muita alegria em reencontrá-la, irmanita
são exatamente onze da noite
no tempo das noites de frio
Sampa, novas unidades de significado
outro dia vi uma mulher tendo um ataque epilético
no Largo da Batata
fiquei pensando o que você faria
se estivesse lá
passei rente ao bucho da senhora
muita gente em volta
querendo ajudar
e atrapalhando ela respirar
estou premeditando
fotografar estados aqui quase irreais
a rua ou qualquer outro inusitado
um dia o céu fechou
em plena tarde já era noite
predileção por este trabalho entre
de homens de outros matos
para além das horas
em tudo que me dá mais vida
só penso me sentir só
e tua presença reverteria este quadro
lembra que te falei do duplo?
vou tentar explicar de forma rápida
(ver também artigo)
uma figura arquetípica junguiana
o mais importante
é que é um parceiro solidário do mesmo sexo que oferece
presença
Jung nunca quis que suas definições fossem estáticas
e tidas como final
talvez quisesse que suas interpretações fossem revistas
relidas
duplos são “guias da alma”
o mais profundo
ponto de apoio da pessoa
seu Companheiro de Sexta-feira
ele pode desobstruir os processos criativos
Marx & Engels
Picasso e Braque
Paulo Leminski e Régis Bonvícino

a todos eles, a ti dedico:

Carne mística, êxtase maravilhoso do possível aqui & agora
a manifestação divina, gozo noite asteroide
desobediência ao código ascendendo em círculo do subterrâneo interior
reencontro com a superação do verme humano podre negligenciado

em nome da tua força, cara minha
rememoro transcendência de teu bucho menininho soprando repetido gaita para a luz vermelha vira
– o incrível nos olhos dele é como o que há nos teus

em nome do teu amor, amoer neles corrói,
realinho escritura única, teço manta mapa do grande universo:
ponto voador de disco tatuado de plexo
pássaro escuro curvado em nosso cérebro macaco

em estado de graça, irmanita, aqui proclamo
invalido vergonha e medo e morte
– porque te vejo sempre ao meu lado e sem você não poderia ter sido

em nome de tua alma, estilhaço palácio sublime desencarnado:
leão verde e vermelho
dragão envenenado 
ovo cósmico serpenteado
deva de mil olhos e braços
gordos budas descansados
senhoras e senhoritas carudas de todas as turas
andróginos de pintos e xotas jamais tocados
crânio de Elohim e sol de pescoços cortados
Joanas e juventudes e purezas e todos loucos em condições de tua própria natureza.

III
noite outra Ângela carneosso chegou muito perto-peitos e plexo talvez tivesse sido cândido ángel que me ofereceu aquele bolinho azul ou era roxo naquela doce noite de frio ingênuo e licencioso que ela descolou de uma paredes e ultrapassou em nós sonido arrepio da cabeça aos pés imediatamente serafim consolidado surpreendia-nos vários braços alado e lá os pés se afastavam do chão – e nunca mais voltada – ela toda a vida acontecia magia voltando era São Paulo de antes de Brasília já nem sei horas de hueras de todos os dias e mudança de plano transição lunar do terceiro andar era um prédio antigo da Avenida São João em seguida atravessando a Rebouças lá pelas sete pode parecer um tanto quanto arriscado, mas o incrível é poder falar da queda que se faz ao contrário, ato de descer para cima como a negação dos mandamentos, ou mesmo de descer para o oeste e já continuar pelas ruas de Pinheiros onde por acaso objetivo Claudio Willer gnose ali recado de Hilda Hilst, Julio Cortázar & Allen Ginsberg só para citar uma das possíveis tríades, minhas asas de pavão encarcerado preto no branco devotas em cópula sagrada, todos due gozozoz já estavam tatuados em meu plexo desde quando pela primeira vez a palavra mágica me fora revelada sem deixar de ser ocultada em um sonho de carne e osso quando revi a intraduzível cara da morte ou era a da incrível e libidinosa noite de um sol negro depois de fevereiro tempo realmente terrível acordar desconhecido compactuar com sete bilhões destituídos de todo e qualquer girassol possível e maravilhoso.

ancas e pescoço
primeiro beijo já visto
ele se prontificou inteiro para dentro dela
ao lado colados
círculo de melindres & calças livres
senhouras e senhoures
experimentaram o encontro de seus incupables pelos
experimentaram rumos de todas as direções
experimentaram novos lábios
ultrapassem fachadas
tatearam nova gramática para fora de todos os centros:

cabeça cruz igrejinha pactuaram naquela esquina.

IV
Pronto-socorro infeccionado na unidade clínicas
fila de emergência com mais cem tipos de vírus altamente influenciados
bactérias calorentas em demoras no frio estão mui locas e infernizadas diante desta burocracia caralha
mais dócil morrer logo esperar a fúria desintegrada do atendimento público-privado
CEP ou CPF
cem pila
fichinha completa para mala-direta do plano de saúde dopado
sobrevivemos mas nunca compreenderemos.

V
Mamãe exu-Belém foi morar perto do trilho do trem embaixo da escada da estação
acendeu velas vermelhas e pretas no chão da encruzilhada, aonde deixou também uma garrafa vazia de cerveja

na calçada comeu, deixou restos de arroz e feijão

passara noite, cama papelão & asfalto com camadas de restos de noites de birita deixados na porta de botecos impregnados de álcool, toicinhos e braguilhas

pela manhã acordou com Yakult na cara
lavou a roupa e pendurou na grade da escola primária
aonde bebês às oito da manhã sonhavam com um mar-de-leite e gigantes tetas de montanhas bastardas.

VI*
São Paulo está me deixando tão pra baixo
Brasília vai me fazer cair o cérebro
e todos deveriam saber sobre
o Kibbutz Jesuix.

você pode sentir isso?
eu sei que sim
está tudo no ar
mão posso viver sob essa pressão por mais tempo
alguém aí – um amuleto, uma palavra de fé?

cães chovem em minhas preces
crianças na escolas sentam nas grades
gatos pretos atravessam meu caminho
será hoje meu último dia?

Deus tenha piedade dessa ilha de ilusão
nós que saímos voltaremos em algum momento?
não pertenço aqui
não pertenço alá
sempre me guiarei
– autoconhecimento.

não me diga não
não vou dizer que está tudo bem
eu e meus broders estamos indo
estive do lado de lá então sei
eles continuam dizendo: –
Pega leve!

Mas aqui só tem problema?
Pega leve.
Lavando a janela?
Pega leve.
Limpando o ouvido?
Pega leve.
Só vê podridão?
Pega leve.
Você diz que sou preguiçosa?
Pega leve.

pra onde estou indo?
o que estou fazendo?
eu não sei!
eu não sei!

melhor tentar fazer que há de melhor
vamos lá, aqui
vamos dizer a eles enfim aonde fica nosso Kibbutz.

greves e filas
cotas para negros
eles tentam dizer que isso é comunitário
– igualdade precária, mes amis.

Participação em rede?
Pega leve.
Reencontros?
Pega leve.
Delicadamente?
Pega leve.
Violentamente?
Pega leve.
Você pode ver?
Você pode sentir?
Eu não sei!
Eu não sei!

você não precisa ficar por perto
devolva a esperança antes passar ou seguir.

todo mundo sabe sobre São Paulo
todo mundo sabe sobre Brasília
& agora eles vão ficar sabendo também sobre o Kibbutz do desejo.


[*] Esta é uma releitura rítmica de "
Mississipi Goddam", interpretada por Nina Simone.

VII
Chefe touro vertiginoso na esquina da Cônego Eugênio Leite com a Rua dos Pinheiros gargalhada bizarra
depois muito para dentro de seu coração estreito
outros negaram seiquelá sentados em seus silêncios de bunda

ele sabe não sair de casa nunca como uma criaturinha temerosa e assustada cujos olhos só se abrem a coisitas

Iarrová Elohim plantou um jardim
viu que homem nele havia arremessado fogo
queimando frio por dentro cruzou o portal
- enquadramos agimos de olhos fechados -
serpente espiralada aqui & acima manda também excessos

La Madre Divina Kundalini desce a Arthur de Azevedo descabelada elegante, fora do tempo, fora de moda
cantarola:
daqui ou de lá altura nunca terceiro andar
(ei-ei, não há um funeral lá fora)

Tristan Chant é carne moída no trilho do trem
Breton morreu tentando salvar Artaud en La Rave

Enoch e Elias são de nós
a festa está mais umbral que astral

nada é por acaso se liga cantares
não negue cantarola
não negue sopros e sim
você está em sua rota

Estação da Luz: atenção não tremer
Santa Teresa D’avoa acaba de cair dentro do buraco

Bruxa velha voluntariosa gosta de tatuagens sussurra “então, vai comer? Este é meu corpo entregue

Rodrigo sem sobrenome queria ter um nome próprio

Crânio de Elohim em meus dentes guardados

Sarah Vaughan dançando ao fundo – é um homem que enfia a boca para dentro do cu.

Vem Nina, vem!

Chefe Ares dá um teco em minha bolsa

Entro no cabaret e daí – mania de pássaro de uma asa só – e daí

Mamãe defuma eu
Papai defuma.

IX
Enquanto você bebe e conversa alguém de olho na posição de seu signo e ascendente, seu futuro para dentro suas pernas, no chão – mesmo sem ninguém por perto – e quando você menos espera um emprego vira a esquina, uma cerveja ou um café com primas de infância de Brasília, a mão esquerda da luva ou uma resposta, um rumo, um quarto cheio de doces, um bebê bochechudo, uma moeda de outro século ou um projeto de pesquisa.


me ligaram da indústria farmacêutica, me propuseram uma mudança imediata ao Sul do país, profundos olhos de beagles e experimentos demais, eles diziam muitas coisas e eu tinha que voltar a Brasília: juntei uns livros do Ezio Flavio Bazzo, devia ter te falado antes ao Faraó, o cara estava sentado aqui, nessa cadeira, relembrando os combates territoriais de peixes dos recifes de coral e tubarões de pulsões quase morais de certos sociáveis desprovidos de amor ou garças, em festa sangrentas guerras maciças das ratazanas. Saudade Borges, labirintos, espelhos, máscaras, Brasília: Las notches y las nuestras pesadilhas.

XI
SALÉM
– E então?
TRÁGICO-ZEN
– Zero.
SALÉM
– Por acaso você volta quando?
TRÁGICO-ZEN
– Não sei.
SALÉM
– Fora isso, tudo bem?
TRÁGICO-ZEN
– Não reclamo.
SALÉM
– No fim é só esquecer?
TRÁGICO-ZEN
– Arrumar também uma cabana e me afastar para não muito longe da cidade.

XII
Pelé tem dezoito filhos todos envolvidos em esconderijos rendondamente gordos vestem a camisa e vão rolar na esportiva civil do domínio no sem dono pra levar pro buraco encapuzado mas o centro é duplo cada um põe no do outro no dos outros vai pimenta rolando roubando, pai eu tô na globo, empurra culpa, entra no carro, é preto, caralho, então corre, é redondo, bateu, entrou, é pai é pé é mãe é mão, lavou, é gol.



TRAVESSIAS

Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar.

Chico Science

ARGENTINA
este pássaro estava me esperando na rua Peru 565, Buenos Aires
talvez não tenha me dado conta a tempo, mas era o ano Cortázar
talvez não tenha me habituado, mas este pássaro era Presencia
o mesmo pássaro que me esperava em outras esquinas –
de tantas outras avenidas, strs., boulevards, shoppings
inclusive a final da Avenida Jorge Luis Borges, livrarias, perspectivas
esse pássaro me esperou na plazoleta, em Palermo
em outras que virão
haveria de me esperar?
viajo porque sei que encontrarei o pássaro
dito entre livros, tente deslizar

passei mal e vomitei e era um pássaro
este pássaro estava me olhando com cara de bife de chorizo
nachos e queijo derretido e bares de whisky com suco de limão goela abaixo
este não é um pássaro, é um cão

este cão estava me esperando na Avenida Orlando Carpinelli, praia do Pontal
sim eu me dei conta de que este era o ano final do calendário Maia
talvez não tenha me habituado, mas o mundo não acabou
o calçamento de pedras seguiu pé-de-moleque
continuei deixando que me mordessem os pés
enquanto o barco que ia, voltava
as ondas contínuas
minha vida onda
indo e vindo com assiduidade búdica
era rigoroso o caminho até a montanha
entretanto ele a meu lado,
parceiro, me seguia e me esperava
me haveria de seguir à espera sempre do outro lado?

este pássaro me lembrou que também é Ema a constelação que se chama Brasília
além apesar das grandes asas é incapaz de volar
este pássaro está sendo aplastado por carros
este pássaro não to a fins de herdar.

fico porque não compreendo
por que tanto passo pássaro
sigo porque aprendi a suportar o som do estilhaço.

HUNGRIA
nunca sonhei com você
recuerdo a todo instante nas vitrines todos os Chicos
piscinões do Danúbio (Szechenzyi, Rudas – thermal baths)
luckies-light a 600 forints, kohh-sey-non
castelos de Buda, ereções de Peste
reminiscências comunistas, buracos vândalos, a sempre noite, as garotinhas bem bonitas estilo Amélie Poulain na pista
para toda a graça de Neto
, todas húngaras
Sok,tah keh. F all-knee Ozz arshe sure randy?
se te confio meus olhos, se me pulso bebo a acreditar outra vez
palavra de mulher
, vou voltar.

FRANÇA
vôlei de praia em Montpellier
com desodorantes de cinco euros
sul da França em litorânea é bege, tanto organizado quanto bege e azul bem claro
as velhas escoteiras marronzinhas estsão vermelhas e marcadas de excursão entopem os vagões do trem
não há vagas descemos todos em Mônaco para um Grand Prix
aqui não entraremos em muitos detalhes
Nice é meio fechada e blasée
casual Burger no McDonalds com gay vegetariano de Los Angeles
puis plus

ESPANHA
o coro da torcida do Barça atravessa a ruma
me abraçam as curvas psicodélicas de Gaudi
as tetas inusitadas da prainha
sedentos inescapáveis vendedores de suvenirs
onde fica mesmo o mercado de boquetes?
mercadona supermercat, volveria.

ITÁLIA
Bangladesh tomam o centro de comércio interminável
perguntou tem que pagar
XIX century architecture
descendo e subindo a Via universitá
briga italianos no metrô: falam mais alto mas no máximo um peito a peito
de volta ao seaside, perda e recuperação da cor
Hill of the Volmero
alerta Versuvius, atividade erupção
sequência de praias-de-pedras
Sorrento, Meta, Seiano
a hospitalidade italiana, vivi um "vem comigo"
música-brasileira em carona com Celeste
também uma em Itapoã uma tarde com Franchesco
todas as mulheres, todos os gondoleiros
estou pagando a promessa que eu não fiz
Roma, velho palíndromo.

REINO UNIDO

Vodka rum whisky coca soda irish cream sofás cider cerveja tequila-gim high duble drink banquinhos coca scott vinho ice dardo sinuca pub red bull psicoativos alcaloides sintéticos transexuais do oriente seguranças a serviço da antipsicotropia socos no balcão itálias nervosas vietnamitas chineses sedentos da experiência antropológica poder da mente punhos de escritor um velho amigo de outra língua.




*Escritos reunidos para Floriano Martins, publicado na Revista InComunidade (com desenhos) - em Junho de 2015.