24.10.18

agora todos os dedos desta (querida) árvore

agora todos os dedos desta
(querida) árvore tem mãos, e todas as mãos alcançam pessoas, e cada pessoa em particular é (meu amor) mais vivo do que qualquer mundo possa conceber
e agora você sou o eu que sou agora
e nós somos
um mistério que nunca se repetirá,
um milagre que nunca antes
brilhará assim -
nascendo nosso agora que virá 
quando os dedos estão sem as mãos;
e eu não tenho você:
e todas as árvores são (não mais
cada folha que cai)
o silêncio que neva para sempre
e gracioso, meu florescer)
neste nosso então
é luminosa garra de divino desejo 
(pequena e brilhante imortalidade intenciono
para que estes meus desacreditados olhos 
se aventurem no lugar do nunca antes)
confirmações duvidosas: purezaintegridade imediata: mais precisamente emprestada 
do mais elevado sonho do silêncio 
que atravessa
o mistério carne

- lua nova! E assim (pelo milagre do declínio 
de sua doce inocência) dissipar
covardias do mundo
do mais elevado sonho do silêncio 
que atravessa
o mistério carne
- lua nova! E assim (pelo milagre do declínio 
de sua doce inocência) dissipar
covardias do mundo
e amanhecer abundantemente segredo

nosso então devir escuridão
- mas nunca tenha medo (meu único
é divina garra de desejo luminoso
matar também a guerra que me habita

*poem Now all the fingers of this tree (darling), de e. e. cummings, livremente revisitado por tamara e costa.

24.8.18

Wilhelm Reich não interrompido


[A humanidade correu sempre atrás de cada ínfima parcela de esperança e de conhecimento. Mas depois de três milênios de pesquisas, de tormentos, de sofrimentos, de assassinatos punindo heresias, de perseguições por faltas aparentes, ela não conseguiu mais do que algum conforto para uma minoria, sob a forma de automóveis, aviões, frigoríficos e aparelhos de rádio.] em O assassinato de Cristo

[Por isso, aqueles que não têm fé no processo vital, ou que a perderam, estão à mercê da influência subterrânea do medo à vida, que dá origem à ditadura. O processo vital é inerentemente 'racional'. Torna-se 'distorcido' e grotesco se não lhe é permitido desenvolver-se livremente. Quando se 'distorce' o processo vital, pode-se apenas engendrar o medo. Somente o conhecimento do processo vital pode dissipar o medo.] em A função do orgasmo

"Fui acusado de ser um utopista, de querer eliminar do mundo a insatisfação e salvaguardar apenas o prazer. Entretanto pus e preto no branco ao afirmar que a educação convencional torna as pessoas incapazes para o prazer — encouraçando-as contra o desprazer. O prazer e a alegria da vida são inconcebíveis sem luta, sem experiências dolorosas e desagradáveis auto-avaliações. A saúde psíquica se caracteriza não pela teoria do Nirvana dos iogues e budistas, nem pelo hedonismo dos
103epicuristas12 ou pela renúncia do monasticismo; caracteriza-se pela alternância entre a luta desagradável e a felicidade, entre o erro e a verdade, entre a derivação e a volta ao rumo, entre o ódio racional e o amor racional; em suma, pelo fato de se estar plenamente vivo em todas as situações da vida." em A função do orgasmo

[PENSAMENTOS DE IMPORTÂNCIA
Pensamentos de importância
são construídos como catedrais
que alcançam os céus
como se quisessem voar.

Avante, proclamam
desde as profundezas do mar
ricos como o avolumar-se
de um desígnio cada vez maior.

prescrutemos os céus
alcancemos as escretas
arrebentemos o grito
transcendendo todas as barreiras.

em Contato com o espaço]


19.6.18

deixa no


Não deixe pessoas de seu
Sustentáculo,
Meninas não,
Senhoras não,
Meninos não,
Senhores não,
Nada no intermédio
Nenhum desses,
Não deixe pessoas de seu
Sustentáculo.

Ao invés,
Sustente acima da areia,
sobre aterros,
Erga-se em piscinas,
Acima de cemitérios,
até sobre a água,
Mas não coloque nada sobre pessoas.

Elas são uma aposta ruim,
a pior que você pode fazer.

Alce também algo
em qualquer outro lugar,
qualquer lugar,
mas em cima de pessoas,
sem cabeça, sem coração
multidões de gentes que
esfuracam os
séculos,
os dias,
as noites,
as vilas, as cidades, as
nações
a Terra,
a estratosfera,
esfoladas todas as chances
aqui,
totalmente destroçadas
até
então
agora
e amanhã.

Qualquer coisa,
exceto pessoas,
é um motivo que vale a pena
ir em busca de.


Qualquer coisa.

*poem Let Not, de Charles Bukowski, aqui livremente traduzido/revisitado por tamara e costa.

15.1.18

retorno de urano

revirando cobras e poeira, gritos ainda ecoam:

perdoa, minha menina, a espada atravessada

palavra

perdoa, medo muita raiva

ainda estou [palavra]

exprimo espada, espanto boiada

de líquidos, palavras

amontoado letroso entre paredes ressurge o pássaro primeiro 

- território ocupado

abaixo agora médio umbigo pulsa raivoso

meu corpo estrutura

mil fugas da vitrine fama armada

quatro pássaros atravessam solos

elegantemente confiantes e

descampantes, traçam abertura ao sofá estreito

fecho o plexo e desapareço no quarto ácido minguante de minhas memórias

camisa menina, minha mofada

teu nome apagado, sucessivamente, ergo:

minhas escrituras de presentensas fugas

as matemáticas da pala

as valas águas represadas

as desárvores de escuros da infância fuga

perdoa e vai

peito, mancha perfura abre

canelas, minhas pernas

café, minhas coxas

atravessa

as bocas fechadas dos sapos

o espelho grotesco, refaço:

nunca mais eu num volto minto?

sob o signo do terceiro olho


seguir nasciendo.

17.1.17

Carta al Greco


“O que me interessa não é o homem, nem a terra, nem o céu, mas a chama que devora homem, terra e céu. A Rússia não me interessa, mas a chama que devora a Rússia. Melhoria da sorte da massa ou da elite, felicidade, justiça, virtude, engodos populares que não me enganam. Uma só coisa me prende; eu a busco por toda parte e meus olhos a seguem com espanto e alegria: a linha rubra que perfura e atravessa, como um rosário de crânios, os homens. Eu só amo esta linha rubra, minha única alegria é senti-la perfurar e atravessar meu crânio partindo-o, tudo mais me perece efêmero, beatamente filantrópico e vegetariano, indigno de uma alma que se libertou de toda a esperança.” Nikos Kazantzakis

4.5.16

Memórias de um astronauta com Azheimer


*texto escrito em uma oficina de contos. a ideia era que fosse publicado num livro, tava no pacote que ganhei de presente de aniversário no ano do fim do mundo (2012). não me identifiquei com os autores, não me identifiquei com o curso nem com os envolvidos e uma senhora, após a minha leitura de fato "dramática" deste experimento da linguagem, disse que meus escritos tavam muito desconexos, que não tinha entendido nada e ficou claramente irritada. achei curioso, devo escrever sobre isso - ela ficou indignada/puta com a minha não-linearidade. por que, na minha insignificância e clara despretensão (não, não faço a menor questão que me leiam, não todos, de certo uns poucos), e com apenas estas palavras, ela ficou tão chateada? o problema que ela teve comigo é dela, mas também matéria-prima para mim. a ver. bom, acho que essa é parte da ideia: pairar/sobrevoar, desconstruir e tentar atravessar e quando vi pronto! atravessei. pronto, adios. já não mais acá.

 para não perder, tan solo para muertos e para Romano (agente do resgate), aqui está:

memórias de um astronauta com Alzheimer
CMR (Controle da Missão Recuerdo): Dioniso injetado em órbita heliocêntrica. Em deslocamento voluntário, segue em proximidade solar jamais alcançada. Impacto inestimável.

Lá embaixo fui um rato. Desci do módulo e depois fui um águia. Disse: este é um pequeno passo para um rato e um grande salto para uma pássaro. Voo espacial, animal tendencioso, câmbio. Insight confirmado. Estou atravessando o deserto de Marte com todo esse sol fritando as maçãs de meus ocos. Incrível sol de fevereiro cozinhou meu coração com sementes de romã. Eu, imaginem, primeira foto: uma bisonha criança de chifres de uma ilha costeira do Mar Negro. Fenômeno da inversão cronológica, aqui retrocedo Ares. Um dia capturei todas as mensagens e fui capaz de reproduzi-las em ondulações vitoriosas. Por isso fui ordenado ao espaço. No primeiro dia em órbita, foi imensa boca de jacaré, mamita, que me trouxe o café da manhã intergaláctico. Cápsulas leitosas em grânulos redondos com vastos pontilhados, pequenas e saborosas imaginações de minúsculas tetas. Mamá atendeu o chamado e desapareceu, e eu, diante do clarão que explodiu em ecos de «Odin!», eu, que aqui vos digo. Me derreto deslizante rumo ao sol negro. É inacreditável. É fantástico. Minhas células estão doidinhas. Sou um homem corajoso, sou nave persona metástase de elegantes cores. E peço, por favor, me passem a mostarda.

CMR: Dioniso, você DEVE que ir para o outro lado. Vá para o outro lado. VOLTE, este é o comando. Estamos te perdendo.

1,3 segundos ultrapassados no tempo real ou abaixo do tom. Every one is gone to the moon. Mensagem processada. Todos nosotros? Todos. Sim, bebezitos, pequenos pontos de sol que fazem xixi e cocô. No fim de tudo, todos nós devir demência ou retorno ao eixo inicial. Sim, disse também: arrisco-me a perder esta carne de mierda. Mamazita fulminada não me troca mais as fraudas. Atenção, eu vos digo: Comando da Missão Recuerdo, yo estoy todo cagado. Vocês não entendem, mas aqui cheira a merda. Nas alturas de agora é muito mais interessante mostrar minhas incríveis manobras linguísticas. Porque en todo el cosmos no existe a mais nadie a quien pueda yo amar, parabolicamará. Este é o sinal original: siga o sol. Tu não estás solo. Lembra Alfonsina, esquece a confusão mental, as falhas na memória e foca. Foca. Mar negro, quadros de Botero, marias-mole, tudo aquilo que tu tanto gosta. Foca. Missão recuerdo. Foca. Acesso os registros, onde se concentra a memória central. Ok, ao telescópio. Miro o grande ojo que vejo e o signo, o sigo. Olho meu no teu olho tão pierto, que é impossível não seguir fixo pupila redondita. Mas todos têm logo algo perguntar e a minha dúvida: é ou não é um OVNI? Luzita em L, vejo e vos digo que realiza encantadoras elipses, macias manobras que me agarram como se eu fosse eu? um coelhinho me atravessa o ouvido. Tripulação, atenção: redemoinho de astros de auroras soberbas que nada temem. Há vida depois das caravelas. E daí? Há sempre algo por trás disso ou daquilo ali. Informe-se mais sobre a linguagem proibida e preste atenção nas câmeras. Meu nome é Odin, o sol é um pássaro preto e eu nasci em dois ninhos futuros.. Até hoje só não pude compreender porquê me tiraram daquele aninhado bucho e me colocaram no meio de uma coxa. Venado Tuerto, Argentina, 1987. Era eu um astroimpacto. Ou seria 2042? Ei-ei, acabei de sair da casa de Xiita... Subi a montanha do impossível, depois nunca mais voltei de lá. Ai, como é difícil bater palmitas. Ando meio escafandrado. Me ajude, grande ojo, me ajude a tirar essa tralha toda. Mãos, mãe, mamazita... Vou roçar até romper tua peles com cobertura de confetes e velinha nesta data querida. Ei, vocês tem alguma ideia de quantos anos se passaram?

CMR: O sol está a cerca de 6.000 milhas náuticas de você agora. VÁ JÁ para o outro lado. Vá já para o outro lado, câmbio.

Verdade que vi o rosto de Hélios em pulsões de vermelho, amarelo, azul, verde, vermelho e roxos. Senti a cócega do fogo aceso em meio ao círculo que agora sigo ao encontro preciso, grande incêndio que em explosão cósmica faz retornar o filho prometido. Na luanovização estarei de volta. Eu, calor, sonho, poesia. Devo dizer que o impacto expandiu-se. As contrações estão cada vez mais fortes. A pulsão empurrou meu corpo, preciso de umas bolinhas. Meu corpo empurrado contra o dela ela, sim, meu próprio corpo foi impelido até sair pela abertura de uma grande vagina.

CMR: Recomendamos que você abandone o impulso antiterrestre. TANGO-TANGO, estamos perdendo... Bravo-tango, câmbio.

E foi então que nasci pela segunda vez. Digo que quando cheguei do outro lado, senti estupidíssimas dores de cabeça. Era Sol. Era Lua. Era o princípio. Era agora e não mais antes. Me colocaram dentro de uma cápsula redonda deitado como uma galinha choca pronta para ser assada e então eu fui com uma enxaqueca tão insuportável que me retorci no escafandro até cessar o pulso que vinha de meus olhos. Disseram que eu devia escrever tudo, pois as memórias anteriores me seriam sucessivamente deletadas à medida em que eu entrasse em órbita heliocêntrica. Mas então, aquela hora eu já não sabia mais escrever, por isso falo e falo e falo. Está tudo gravado. Coisas incríveis que aconteceram no incrível olho de um sol antes de fevereiro. Desenrolei os emaranhados que me foram propostos, engatado por impulso de mercúrio; de alguns pontos saíram linhas amarelas, de outros, chifre roxos, gugudadá, dont you cry. Meus olhinhos centrados viram o adios de mamá boquita de jacaré me esperando com a cantiga do lado de lá orquestrada por suas corajosas tetas, que sempre vão muito além dessa guerra de representações e pecados. Eu precisava organizar toda essa informação e comunicar aos agentes do comando civilizado antes que fosse tarde demais. Mas percebi que me dava conta de estilísticas mais que aqueles que me ordenavam aflitos deste ou daquele lado das estatísticas. Então disse que corpos são chacras. Me complicam que se ordenam que fale com mais clareza. Uéué. Nasci com a bunda virada pra lua, eu sou a nova, a ida, a vinda, a roda, fio do novelo que continua. Renasço absurdo e sigo entre dois pássaros, um branco un negro. Ondulando fino quase não me contenho, e ultrapasso perspectivas. Nunca me senti tão amável e de textura tão agradável. Meu cérebro, patê de pato. Declínio cognitivo. Qua-qua. O fogo não pode ser devolvido, por isso peço que deixem as lavas queimarem naturalmente meus pezinhos tão bem talhados de carne fofa. Estou cansado dessas pílulas, preciso de comida. Por favor, tomem cuidado com essa merda toda que vocês estão fazendo. Sinto o cheiro. E quando terminarem, por gentileza, me passem a mostarda.



*Tamara e Costa nasceu em 1984, em Planaltina-DF. Prepara e revisa textos, dá cadência a escritos de manga e bolso, e está a serviço do fogo. Mantém o blog laraturamataraturali.

1.5.16

Título da postagem



Teoria do caranguejo


Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.

Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.

*Triunfo, Madri, nº 418, 6 de junho de 1970

CORTÁZAR, Júlio. Papéis inesperados. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 2010. Via releituras.com.

17.10.15

Dez passos de claridade dez passos de escuridão


Vivo sem viver em mim
E tanta vida espero
Que morro porque não morro
[Tereza D'ávila]



Vocês que não sabem o que há depois da morte. Eles disseram que o cara teve uma parada, mas para o Senhor a “A morte é como um sono”, disse. De tal desespero, imaginamos que até evita um estado de horroridão. Pra que temer a morte se Deus está por perto? Por que o medo do que virá? Tenha calma, menina, é sempre pior pra quem fica. A mãe do velho teve 16 filhos, menina. A mãe do velho ficou enquanto se foram três ou quatro meninos. Quando falo velho era o mais velho. A velha dele com 16 filhos, ainda mais velha que ele. Quanta maria do quarto calculemos, talvez 12 homens, entre eles 3 natimortos. Imagina essa pobre chorona velha ninando - crianças. Nós choramos muito. Nós choramos e vem de dentro e as vezes choro é tal desespero que se faz grito. Procurávamos sua carteira, as senhas do cartão que você não deixou. A velha abre o criado ao lado da cama um relógio de ouro sem bateria: 11:11. Seu avô tá melhor? Ele ajuda, segura antigas mãos com maestria, segura a corda acima da cama, segura até que ele chame. Ele quem? O Senhor. Ele também nos concedeu o esquecimento e a graça de nunca calar-nos, amém. Ou calarmo-nos, amém. Nessas horas você não tem mais nada pra dizer, só calar os olhos e fechar duma vez os dentes. Será que ele terá salvação? Os dentes estão quebrados. Parece que eu tô sonhando. Errr, demora um pouco pra cair a ficha. Colocaram a sonda – tipo começando a entubar. Se for pra UTI já era. Acorda, vô. Come mais, senão cê num vai embora. Se morre, morre oras, entubação final no caixão rodeado de crisântemos. Eles preparam o seu sorriso e os dentes quebrados ninguém verá. Às vezes você consegue não chorar. Parece um sonho. Você está com um semblante mais calmo. Três ou quatro comprimidos depois você acorda rodeado de gentes como um boi de alimentar piranha. Defuntos, peixes adoram. Imagina morrer boi de piranha, grotesco. Cadáveres são grotescos.  Contemplar a morte é grotesco. Mas é isso que fazem. Contemplam o morto e rezam envolto de crisântemos. Mas na vida nem aparecia, nem rezava, nem chorava. Incoerências. Olha aquela lá. Namorar um homem casado? Piranha. Mas ele quem procurou. Safado ele, ela, piranha mesmo, puta. Mulher que namora homem casado é puta. Eles tiveram que reunir 300 pilas para coroa de crisântemos e a burocracia. Uma linda coroa. Eu estava gostando muito de ter uma ideia e escrever. Também fiquei olhando pra puta fictícia - num era ela, confundiram. Atiraram pra cima. As piranhas sairam voando. O cara que morreu ao lado era trafica. Sinais de chumbo e sangue não devem se apagar nunquinha - um grito baleado de horror imortal. Ele longe disse, vai, escreve, sobre a estância holandesa, sobre o amor livre, sobre ela, escreve sobre nós. Falou também sobre as praias da Tailândia com desalmado entusiasmo, sem unidade de significação. Escreve que você encontra motivos. É complicado nesses dias de tanto sol e superbactérias a espreita dessa vida que não se demora. Há, felizmente, as drogas, jovens e velhos, novas drogas e a possibilidade de ficar mais um pouquinho. Remedinho, toma aí. Remediado está. Os doze irmãos virão? Os médicos chegaram e disseram tome mais água que o xixi tá muito escuro, você bebendo pouca água, desse jeito vai morrer. Quem é você, Senhor? Eu morri mesmo, algumas vezes. Se a morte é como um sono e eu que durmo tanto? Cadeira de hospital, durmo. Sofá, encosto e durmo. Cama, durmo três dias seguidos sem beber água - só fumando. Comecei a existir em apenas alguns minutos após três dias na extensão dos sonhos. A realidade, um estado de depressão. A pele entristecida do velho ao sol preparando o chão missão de Urano. Deve ser mais confortável ter passado ao sol plantando sem impactos as sementes, estes filhos que agora somos. Por parte de pai eram imigrantes ou imigrados, Portugal com África. Por parte de mãe, agricultores e coletores. Sabem sobre temporais e deslizamentos. Vocês que nos julgam culpados pelos ritos, com que mãos lotadas de balanças erguerão um abraço ao filho deixado; e no lugar do abandono uma neurose impressa no pulmão. DNA, you never knows. Você é do tipo café ou cenoura? Presta atenção, quando a chapa esquenta cê amolece ou transmuta? Que poderia eu fazer com vocês e suas mil e duas analogias interessantíssimas? Como alma desperta, deveria não continuar fazendo as mesmas merdas. Você pode fazer um bebê, sabe, ter uma família. Ele deve reencarnar logo. Deixou muitos nós. Doze filhos? Todos desconectados. Os humanos e suas mentiras. Raro vejo um que não é covarde. Convenhamos, esse mundo não está ficando melhor, nunca saímos da barbárie. O Senhor distante está ficando cada vez mais complicado mas todos estão conectados - degradados filhos. Saber como você está por dentro é melhor não falar. Ou então você ali de final na UTI devorando e sendo devorado pelas paixões segundo as superbactérias. “Que nosso fogo interno esteja ao máximo, para esquentar a regra ao rubro e modifica-la! Que nossa realidade interior seja tão forte que corrija a realidade exterior!", disse Braque. Sempre presente morte, musa da filosofia.  Senhor, tomara que esteja alinhado também nessa hora e não me esqueçam meu chapéu de peão e minha blusa quadriculada. Alinhar os de cima e os de baixo que é meio complicado. Assim que tu, orvalho de luz, minha neta, não vá repetir a merda e daqui há mil anos ter a pele devorada no ar de nuvens tóxicas acima do lago de fogo e enxofre. As vezes a morte é como um susto, te faz acordar pra realidade, lembrar de tudo. Sem que ninguém o conduza, já nos faz lembrar que eles não te conhecem nunca de maneira absoluta - e você segue mentindo para poder continuar.  Até que ponto famílias têm intimidade para revelarem entre si os segredos? Até que ponto querem saber? É melhor que desconheçam. Atrás de qual árvore está o buraco do coelhinho. Vamos! Podemos considerar que tudo é real e certo ou que o buraco é mais embaixo – ou ao lado da cova da última filha - ou abaixo. Então ele se faz existir apenas no momento que está conectado. Nós nos conectamos em oração de silêncio. Abro um parênteses, algo em seus olhos desde a primeira vez me fez ver como estou agora olhando você me ver. Algo em seus olhos era blue. Hilda a gata atravessou o carro do outro lado da rua estava. Tratamos também de abrir–lhe um buraco na sombra abaixo do algodoeiro.

tamara e.